História · Religião

Nhá-história do arraiá: a origem das festas juninas

Nhá-história do arraiá: a origem das festas juninas

Desde antes de Cristo já havia festa no mês de junho e julho, acendiam-se fogueiras para saudarem o verão europeu, até que o catolicismo fundiu as comemorações pagãs ao aniversário de São João dando origem assim às hoje conhecidas festas juninas.

(superinteressante)
POR Marcelo Affini

Antes de Cristo já havia festa de São João… com outro nome. Eram as fogueiras que saudavam a chegada do verão Europeu. Até que, no século VI, o catolicismo associou essas celebrações pagãs ao aniversário de São João. No século XIII, os portugueses passaram a comemorar também as noites de São Pedro e Santo Antonio. No Brasil, as festas são populares desde 1583.

A fogueira de São João nasceu antes de são João. Quando o Vaticano instituiu, no século VI, o dia 24 de junho para a comemoração do nascimento daquele que batizou Cristo, os povos europeus já celebravam, com grandes fogueiras, a chegada do sol e do calor. Em 58 a.C., quando o imperador romano César conquistou a Gália (França), os bárbaros já comemoravam o solstício do verão, no dia 22 ou 23 de junho – o momento em que o Sol pára de afastar-se (solstício vem do latim e significa “sol estático”) e volta a incidir em cheio sobre o hemisfério norte. “Os cultos pagãos eram rituais de abundância e fertilidade”, diz a professora maria Montes, antropóloga da Universidade de São Paulo. “Havia sacrifícios de animais e oferendas de cereais para afastar os demônios da esterilidade, das pestes agrícolas e da estiagem”. O cristianismo, na verdade, apenas “converteu” uma tradição pagã em festa católica.

Até hoje, as tradições pagãs e cristãs convivem. A seita uika, inspirada nos antigos celtas (povo que dominou ooeste da Europa no primeiro milênio antes de Cristo) acende grandes fogueiras ao redor do mundo, no solstício do verão europeu. no Brasil, a Uika promove comemorações místicas, com mais de 500 pessoas, no dia de São João, em São Tomé das Letras (MG) e Mauá (RJ). Na Espanha, as Hogueras de San Juan são uma das tradições mais cultivadas, especialmente na Catalunha.

Em portugal, as comemorações foram ampliadas no século XIII, incluindo o dia de nascimento de Santo Antonio de Pádua (que nasceu em Portugal mas morreu na Itália, no dia 13 de junho de 1195), e o da morte de São Pedro, em 29 de junho. Transportadas para o Brasil colonial, as festas “pegaram” entre índios e escravos. Descrevendo as celebrações católicas “assimiladas” pelos índigenas, o jesuítas Fernão Cardim escreveu em 1583, em seu Tratado da Terra e da Gente do Brasil: “A mais alegre é a das fogueiras de São João, porque suas aldeias ardem em fogo e, para saltarem as fogueiras, não os estorva a roupa, ainda que algumas vezes chamusquem o couro”.

Com a chegada da família real portuguesa, que se transferiu para o Brasil fugindo de Napoleão, na Europa, as festas juninas tomaram novo rumo. Junto com os 15 000 aristocratas que desembarcaram no Rio, em 1808, veio a contradança (originada nas country-dances, bailes camponeses da Normandia e da Inglaterra) que animava as festas da realeza. Era uma dança de casais que trocavam de pares. Não demorou muito, as contradanças saíram dos salões nobres para as festas populares. Casamomentos, batizados, festas juninas, festas de padroeira e muitas outras passaram a ser comemoradas com a dança francesa.

No final do século XIX surgiram formas mais modernas e urbanas de dançar, como a polca, o maxime e lundu, e as quadrilhas foram desbancadas. Entretanto, permaneceram na zona rural, onde a população é mais conservadora. A partir de 1930, quando o nacionalismo de Vargas estimulou a busca de uma identidade cultural brasileira, a vida rural foi revalorizada. Segundo o antropólogo Renato da Silva Queiroz, da USP, “junto com a temática do homem do campo surgiu a dança caipira que nada mais é do que a quadrilha de origem aristocrática com andaptações”.

Hoje, a evolução segue a direção do espetáculo. Segundo o antropólogo Ricardo Lima, da Funarte (Fundação Nacional da Arte), no Rio de Janeiro, há mais de 750 “quadrilhas monumentais “no estado. São grupos de encenação que vestem roupas caríssimas, imitam os trajes das contradanças franceses do século XVIII e aproveitam as quadras de escola de samba para ensaios”, conta Lima. As novas quadrilhas usam, cada vez mais, temas como enredos de carnaval, adotam alegorias e dançam ao som de música sertaneja e música funk. Dentro em pouco, teremos a techno-quadrilha.

 

Fogos espantam maus espíritos

Bombinha, rojão, morteiro, estalinho, cabeça-de-negro, estrelinha, puff e buscapé – vale tudo. O fósforo de cor é um palito de 10 cm de comprimento revestido com massa de pólvora, óxido de ferro, terra refratária e corantes que depois de aceso, provoca faíscas prateadas ou coloridas.

A trança do pau-de-fitas

Dança em que os pares procuram trançar as fitas presas no alto de um mastro de 4 metros de altura. Homens e mulheres ziguezagueiam em volta do mastro, segurando a fita com a mão direita (eles) e com a esquerda (elas), ao som animado do sanfoneiro.

Jogo de argolas

A idéia é levar para casa os objetos “encestados” pelas argolas. Com o fim da troca direta entre os agricultores surgiram jogos e passatempos nas festas — como a pescaria e o tiro ao alvo — para o entretenimento. E para arrecadar fundos para a Igreja Católica.

Comilança e bebedeira na roça

Milho cozido, pamonha, canjica, cocada, bolo de fubá, pipoca, amendoim torrado e pé-de-moleque fazem a festa. O popular quentão, uma infusão quente e conservada no fogo, de cachaça e água, temperada com gengibre e canela, faz a cabeça. Sai debaixo: a ressaca é braba.

A alma da festa

Para pagãos, a fogueira espanta os maus espíritos; para os cristãos, é um bom presságio. Uma fogueira com 22 metros de altura é feita todo ano em Osasco (SP), com 150 toras de eucalipto, e queima de cima para baixo. Pode durar uma semana, mas os bombeiros apagam antes.

O casório

O casamento é o maior evento social da vida rural brasileira. Reúne as famílias, os amigos, os compadres e os noivos, sob as bençãoes do padre e da igreja. O escritor carioca Martins Pena dedicou-lhe duas peças clássicas: O Casamento na Roça (1840) e Festa de São João (1845).

O balão ia subindo

O Balão surgiu para levar pedidos de graça dos homens para São João. Mas virou crime, em todo o Brasil, em 1965, segundo o artigo 26 do Código Florestal e o artigo 28 da Lei das Contravenções Penais de 1941. Dá cadeia. Eles provocam graves incêndios.

Pau-de-sebo

Tronco de árvore, de 3 a 6 metros de altura, lixado e untado com sebo animal. No topo, são colocadas prendas. Quem conseguir escalar o mastro escorregadio, leva. Na escalada, o principal fator de sucesso é a força das mãos, que desgasta o sebo.

 

O santos padroeiros

Três padroeiros inspiram a tradições portuguesa e brasileira

São João Batista

Nascido em 24 de junho, primo de Cristo e precursou do Messias.

O catolicismo associou sua tradição à festa pagã da fogueira. Assim, segundo a lenda, Isabel, a mãe de São João, teria anunciado o nascimento do filho à irmã, Maria, mãe de Jesus, acendendo uma fogueira em clima de um morro. A fogueira virou bom presságio. São João foi degolado por ter denunciado o adultério de herodes com a cunhada, Salomé.

São Pedro

Morto em 29 de junho. O primeiro dos apóstolos , segundo o Evangelho. Era considerado um homem de temperamento impulsivo, mas leal, expansivo e generoso. Morreu crucificado sete anos depois de Cristo. Acredita-se que seu corpo foi enterrado exatamente onde hoje se segue a basílica do Vaticano, em Roma. Foi o primeiro papa. É objeto de devoção em Portugal.

Santo Antônio de Pádua

Morreu em 13 de junho, em Pádua, Itália, aos 36 anos. Nasceu em Lisboa, Portugal, em 1195. A tradição popular lhe atribui caráter brincalhão e a fama de ser um milagroso casamenteiro, venerado pelas moças solteiras. É o santo a quem se recorre para achar objetos perdidos. Como santo português, no século XIII foi incorporado às comemorações juninas em Portugal e trazido pelos colonos para o Brasil.

Pela Web
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