OS PORQUÊS DAS CANÇÕES QUE AMAMOS

OS PORQUÊS DAS CANÇÕES QUE AMAMOS

Há sempre uma história por trás de uma música, seja a de seu processo de composição, seja o que levou o autor a escrevê-la, ou uma simples ideia que lhe veio à mente. Em meio às possibilidades em torno da origem dos versos, há a curiosidade de quem ouve. E quem nunca se questionou sobre o porquê da letra de uma canção?

9195766630_7a0dd57794_b.jpg O músico Djavan, grande alvo de especulações em torno de suas criações musicais. Foto: Marcos Hermes

Muita gente, ao ouvir uma canção que lhe agrada, deseja saber o que o autor quis dizer ao criar os versos que despertam uma espécie de sensação de diálogo entre o que se sente e o que é cantado. Querer saber o que há por trás de algo é próprio da natureza humana e é normal que se tenha curiosidade sobre um segmento artístico tão presente no dia a dia das pessoas, pois isso se assemelha à necessidade de entender um pouco mais sobre a própria vida.

Há quem aprecie uma música por sua melodia, pelo estilo em que é inserida, quem simplesmente curta o som e não se importe com o sentido e há também os que buscam o significado das letras romanceando ou tentando aplicar uma lógica por pura vontade do saber. Nessa tentativa de entender o que carregam as palavras, muitos recorrem à explicações vindas de informações da internet, como textos compartilhados em sites que prometem revelar o que garantem se tratar de seu real significado. O fato é que muitas versões não condizem com a verdade, são lendas urbanas que, por figurarem em tantos lugares, acabam por serem tomadas como confiáveis pelos leitores.

Talvez a invenção mais famosa e absolutamente falsa em torno de uma obra musical, que tenha circulado pela web, seja a relacionada à “Flor de Lis” de Djavan. E é necessário salientar que rumores em torno da letra propagaram-se durante muito tempo como corrente por e-mail e que motivou muitos fãs desavisados a escreverem mensagens de apoio ao autor.

Abaixo, a história contada:

“Djavan teve uma mulher chamada Maria, os dois teriam uma filha que se chamaria Margarida, mas Maria teve um problema na hora do parto e o cantor teria que optar por sua mulher ou por sua filha.

Ele pediu ao médico que fizesse tudo que pudesse para salvar as duas, mas o destino foi duro e as duas faleceram no parto.

Agora é possível ‘sentir’ a letra da música. Conhecendo esta breve história passamos a ouvir a música sob novo contexto, entendendo como a dor pode ser transformada em poema e arte.”

De fato, a afirmação sobre a dor que pode ser transformada em arte é uma verdade absoluta não somente no meio artístico como também entre pessoas comuns, mas esse não é o caso desta canção.

O boato, até hoje de autoria anônima, tomou uma proporção tão grande que, em 2008, a equipe do cantor publicou uma nota em seu site oficial desmentindo a lenda em torno da composição. O próprio autor, pessoalmente, chegou a negar a história em programas de TV como o Viva Voz do canal GNT durante uma entrevista. Segundo ele, a letra que sequer trata-se de uma experiência pessoal, conta a história de um amor que não criou raiz de uma maneira leve, não simplesmente lamentando o acontecido, o que se pode constatar pelo ritmo animado que acompanha o enredo.

Não é a primeira nem a última vez que uma letra de Djavan é alvo de polêmicas muito provavelmente pelo fato do artista, que tem uma forma muito própria de compor, elaborar as melodias antes de escolher as palavras, o que dá margem para que muita gente não compreenda o sentido de suas letras fazendo com que suas canções se aproximem mais do estilo” música para sentir”.

Outro equívoco musical ocorreu com “Gostava tanto de você”, eternizada na voz de Tim Maia, e que também se tornou alvo de especulações na rede após ser divulgada a ideia de que a canção era uma homenagem do autor, Edson Trindade, à filha que havia falecido.Essa versão foi desmentido por Gilmar Mendes, pesquisador e criador do site e-farsas e, mais tarde, por ninguém mais ninguém menos que Erasmo Carlos, que já foi parceiro de banda do autor. Comprovou-se que a canção foi escrita para uma ex-namorada e que não há qualquer relação com a morte ou o desaparecimento de alguém.

A CURIOSIDADE QUE QUESTIONA E VAI ALÉM

O ser humano, se tratando de música ou não, sempre se mostrou curioso em relação ao sentido das coisas. Quem nunca se questionou a respeito do porque de qualquer que seja o assunto que atire a primeira pedra. Questionar-se é completamente válido, mas é preciso saber que nem tudo tem um motivo específico para ser, ou pelo menos, que seja explicável.

Não é de hoje que a música contribui para mostrar a realidade, protestar ou simplesmente encantar as pessoas e não parará por aqui, visto que, desde o seu surgimento, proporciona aos seres humanos infinitas emoções, servindo de instrumento para lutas, declarações de amor ou, por que não, fugas da realidade.

Uma canção pode ter um papel importante ou apenas entreter, não há um compromisso obrigatório, mas por atingir muitas pessoas, pode ajudar a chamar a atenção para algumas questões importantes.

As chamadas músicas de protesto, sobretudo na época da Ditadura Militar no Brasil são um exemplo de como a arte pode contribuir com uma causa seja ela de ordem social, política ou econômica. Uma letra bem trabalhada pode sim, colaborar para influenciar as pessoas à uma determinada linha de pensamento, ou auxiliar a liberta-se dela.

Com a popularização do rock nacional, movimento que surgiu para aproveitar a onda do estilo musical que já havia se consagrado mundialmente nos anos 70, muitas bandas lançaram canções engajadas, cujas letras tinham como objetivo levar o público à reflexão e, por que não, soltar o grito de gerações por tratar de temas recorrentes na juventude como incertezas sobre o futuro e o desejo de revoluções de ordem pessoal ou universal.

Abordando também assuntos ligados à revoluções, as letras de rap acabam por elucidar a visão de mundo das pessoas que desconhecem a realidade das periferias ou que simplesmente a ignoram. Não que esse tipo de música seja recente, mas é válido lembrar que o estilo vem ganhando mais espaço na mídia e que não se trata de um movimento preso somente a uma classe social já que nesses trinta anos de existência, o estilo engloba muitas facetas.

Aliada à Literatura, a composição musical pode sim nos contar uma história, mas isso não significa que o criador tenha que ter vivido o que vive a criatura, sendo possível apresentar uma trama que nunca existiu, ou uma versão inspirada em algo que realmente aconteceu, sendo assim, não há regras ao arquitetar um texto que ganhará vida por meio de sons.

Trata-se de uma arte inesgotável e poderosa e é inegável o fato de que saber o que o autor pretendia ao escrever e em quais circunstâncias o fez, pode modificar a forma como vemos e ouvimos uma canção.

DOS MOTIVOS QUE LEVAM A COMPOR

Bem diz o cantor e compositor, Oswaldo Montenegro, em “Nossas Histórias”: “Toda a melodia é um farol guia em alto mar, quando uma canção consola alguém valeu cantar”.

Neste verso, o autor brinca com um dos muitos papéis que a música é capaz de desempenhar e acaba por mostrar à quem ouve um dos motivos que levam alguns autores a compor: o desejo de tocar o coração das pessoas.

Mas de onde vem todo essa criatividade que o interlocutor possui para construir possíveis histórias em torno das canções? De sua interpretação pessoal, ou do que desejaria que fosse o motivo da letra? Difícil dizer. É como ler um livro. Embarcamos em uma viagem sem sair do lugar, mas a imaginação corre solta e acaba por nos fazer questionar:

“Em que o autor estava pensando quando botou tudo isso no papel? Isso não pode ter vindo do nada!”

E não vem, a música é um símbolo e saber o que carrega aquela melodia que não nos sai da cabeça ou que mexe com os nossos sentidos é mais que uma curiosidade, é querer saber um pouco do outro e o que ele sentia quando a escreveu.

Foto de Claudio Machado - 2009.jpg O cantor e compositor Oswaldo Montenegro Foto: Claudio Machado

Certa vez, durante um de seus shows, Oswaldo fez uma declaração sobre “Se puder sem medo”, uma de suas inúmeras composições, e seu sentimento em relação a obra:

“É engraçado que a gente se perde do sentimento que faz a gente compor uma canção e acaba tocando no futuro e com o passar do tempo pelo prazer de saber que alguém quer ouvir aquela música. Essa música que eu vou tocar agora não. Ela conserva em mim o mesmo pânico que tive quando a compus”

A fala do compositor é mais uma prova de que as canções nascem por um motivo, seja uma experiência vivida ou pela vontade de contar uma história.Fica claro que, muitas vezes,elas acabam ganhando novos sentidos ou perdendo o propósito inicial com o passar dos anos. O modo como reagimos perante as músicas são passíveis de mudanças de acordo com a época em que vivemos, o que sentimos e acontecimentos que nos marcam e isso ocorre também com quem as compõe.

É realmente interessante quando a canção carrega uma bandeira e nos fala sobre coisas que geralmente não teriam voz, mas há a licença poética,os gostos do autor,ou pura e simplesmente uma ficção no meio do caminho. O que não precisa necessariamente ser uma pedra.

O fazer poético exige engenhosidade e não necessariamente um compromisso com a realidade ou fidelidade aos fatos. Para isso, é necessário sentir um pouco mais a música, muito mais do que decifrar seus códigos aparentes ou não.

PARA OS AMANTES MAIS CURIOSOS DESSA ARTE, UMA DICA: o programa “Por trás da Canção” do canal Bis de TV é uma boa opção, pois apresenta as histórias por trás das músicas brasileiras de sucesso, através de depoimentos dos próprios autores, intérpretes e personalidades da indústria musical.

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