ELE NÃO ESTÁ TÃO AFIM DE VOCÊ

ELE NÃO ESTÁ TÃO AFIM DE VOCÊ

Conhecemos alguém verdadeiramente especial. O encontro é encantador do inicio ao fim. Infinitas fantasias já começam a se desenhar e tudo se encaminha para um final extremamente feliz. Mas no dia seguinte não há retorno algum. Nenhum sinal. Nada. Então, iniciamos a tarefa incessante de procurar desculpas, criar hipóteses e recorrer aos amigos, ao invés de pararmos de enganar a nós mesmos e enxergarmos uma explicação crua, mas possível: seu objeto de afeto apenas não está tão afim de você.

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Tudo o que acontece conosco, de uma forma ou de outra, está a nosso favor, se assim decidirmos enxergar. Quando a nossa perspectiva não está voltada somente para o que nos aconteceu, mas também para como entendemos e lidamos com o ocorrido, inúmeras possibilidades não analisadas anteriormente tendem a surgir para nós. Possivelmente passaremos a perceber o que fazer para seguir em frente, se aceitarmos o desafio contínuo de silenciar a mente para enfim ouvi-la, num exercício subjetivo e profundo, e, para tal, o fundamental seria que conhecêssemos inicialmente o que há de mais íntimo em nós para que então pudéssemos estabelecer novos padrões para a percepção do outro.

Ainda assim, desde pequenos somos moldados por diversas representações sociais, que nos levam a crer que quando alguém age com certa indiferença, o faz porque – no que há de mais íntimo – gosta de nós. Quando éramos crianças, nos diziam que aquele que implicava conosco era exatamente quem gostava da gente em segredo. Na juventude, os mais velhos nos estimulam a fantasiar que não havendo reciprocidade a causa estaria na intimidação causada por todas as qualidades singulares que temos. Na fase adulta, nossos amigos nos afastam das frustrações contando as mais variadas historia que mesclam o destino com amores hipotéticos, num otimismo exagerado que se alia intrinsecamente à sensação de condescendência. Hoje sei que a gente se acostuma, mas não deveria.

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De certo, gostamos de alguém pelo que há de mais indefinível. Os inúmeros fatores que nos encantam na maioria das vezes são desconhecidos inclusive pra nós. Mas agregado a eles, permanecemos com um desejo maciço e incontrolável de amor – desses arrebatadores, extraordinários e incondicionais – como ouvimos nas historias e nos filmes. E assim, nos acostumamos a vê-lo escondido em todos os lugares, inclusive onde ele definitivamente não está. Na contramão do pensamento, quando gostamos de alguém, mas não conseguimos determinar se essa pessoa se interessa por nós ou não, nesse momento em que percebemos sinais que se mantêm confusos por um longo período, entendemos que talvez a explicação dura, mas razoável seja de que o seu objeto de afeto apenas não queira estar com você.

Dirigido por Ken Kwapis e baseado no livro de auto ajuda de mesmo nome, “Ele Não Está Tão Afim de Você” é um longa metragem que ultrapassa o enredo, com suas entrelinhas recheadas de reflexões acerca das verdades que não gostaríamos que existissem e que, por vezes, preferimos não enxergar. No filme, a dramática Gigi passa grande parte da sua vida tentando entender as regras camufladas existentes nos jogos de sedução e nas suas possíveis exceções. Ela se percebe olhando constantemente o telefone em busca de aprovação, apesar de seu ultimo encontro ter sido medíocre, quando então surge uma inesperada e promissora amizade entre ela e Alex – este com uma visão pragmática sobre as estratégias masculinas no que diz respeito a novos relacionamentos e suas consequências.

Apesar da aparência despretensiosa o filme se desenvolve através dos mais diversos obstáculos que as relações humanas podem oferecer, transitando em especial por dilemas travados entre individualidades e novos vínculos, numa trama divertida, que apesar de bem arrematada possui pouco tempo dedicado a cada um dos relacionamentos possíveis. Um elenco talentoso e deliciosamente afinado compõe a narrativa, através de diversos casos de afeições que se entrelaçam nas mais improváveis situações. O estilo leve adiciona ao tema corriqueiro um tom de empatia pela obra, trazendo luz àqueles momentos onde permanecemos engessados na vontade de sonhar, de buscar a eternidade, mesmo diante de situações fugazes.

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A interessante escolha de relacionamentos não usuais que surgem como fios condutores de toda a trama, entretanto, nos faz ponderar sobre as desculpas que criamos para nós mesmos quando o obvio se torna insuportável. Por vezes, insistimos em manter nossos velhos hábitos como mecanismos de defesa relutando assim em aceitar os acontecimentos que assustam, mas explicam a inexistência de uma afinidade mútua. E é exatamente essa desconstrução de antigos costumes, para que possamos gradualmente adquirir novos comportamentos diante das mesmas circunstâncias antes vivenciadas, que nos traria a possibilidade de extrair o que há de melhor mesmo em momentos aparentemente desfavoráveis. Não permanecer numa situação que já não nos cabe pode ser uma grande conquista.

Ao final, temos a sensação de que se assim nos propusermos, acharemos o que nos faz genuinamente felizes em nossa jornada. E, por vezes, o caminho mais seguro para isso é a autodescoberta, que possibilita a busca por referências originais e métodos inovadores para nos amparar, permitindo assim que o acaso nos encaminhe para as novas possibilidades. Não teremos ainda assim segurança alguma sobre quem ficará por perto durante um longo período, quem irá nos deixar em alguns instantes ou quem irá passar por nós no momento seguinte, mas a relevância disso possivelmente será outra. Na verdade, seria de certa forma um infindável ciclo porque ao terminar aqui recomeçaria em algum outro lugar, quase como se fosse a primeira vez.

“Ate você se tornar consciente, o inconsciente vai dirigir sua vida e você vai chama-lo de destino.” (Carl Jung)

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