EQUILÍBRIO DISTANTE

EQUILÍBRIO DISTANTE

Aprendemos de um modo que ia além de simples palavras repetidas. Eles nos cativaram ao passar aquela mensagem. Segundo sua experiência, havia uma instabilidade intrínseca que deveria ser superada com esforço diário. Uma instabilidade que nos caracterizaria e que nos manteria vivos.

Tempos atrás, viajando por confins muito distantes em outro continente, eu vivi uma experiência no mínimo interessante. Eu havia chegado a um vilarejo com a missão de determinar necessidades imediatas daquela pequena população relacionadas com água e com energia. Eu e meu pequeno grupo tivemos uma ótima recepção. As pessoas irradiavam uma felicidade difícil de ser explicada em seus olhos.

O vilarejo enfrentava limitações de recursos naturais, mas a população se mantinha estável há várias décadas e a pequena população mantinha com práticas bastante eficientes todos os recursos necessários. As pessoas pareciam muito interessadas no que tínhamos a oferecer, mas sem qualquer postura subserviente. Seu relacionamento com os povoados vizinhos era muito equilibrado e pacífico.

Na segunda noite, já um pouco mais descansado do longo tempo longe de casa, tive a oportunidade de conversar com um homem de meia idade que ocupava uma das posições administrativas. Ele me perguntou se eu estava me sentindo bem entre eles. Eu disse que estava ali há muito pouco tempo, mas que era evidente como eles ali viviam muito bem, apesar das limitações e das dificuldades.

Ele comentou que outros visitantes, que são até nao muito frequentes ali, comentavam mais ou menos a mesma coisa. Ele não entendia esses comentários até que ele próprio teve oportunidade alguns anos antes de passar uma temporada longe e ele pôde ver o que motivava nas pessoas essa estranheza com o que viam ali. Então ele de certo modo concluiu aquele assunto me convidando para acompanhá-lo no dia seguinte.

Ele queria me levar a um local que servia como escola para crianças jovens. Elas brincavam, entre outras coisas, com um copo e uma bolinha. Ele então pegou um desses brinquedos e me mostrou. Se vc coloca a bolinha dentro do copo, não importa como a bolinha se movimenta ali dentro, ela sempre vai acabar repousando no fundo do copo. Se o copo for entretanto virado, daí o jogo muda.

Ele então colocou a pequena bolinha sobre a parte externa do copo, que tinha a abertura voltada para baixo. Ele conduzia a bolinha tentando levá-la ao ponto mais alto. “Vê como assim se tem um equilíbrio instável?”, ele me disse, mostrando com movimentos incertos em várias direções que sempre seria necessário manter a bolinha naquele ponto difícil de ser atingido.

Nós mostramos às crianças, depois delas estarem ambientadas com esse brinquedo, como ele pode ser comparado ao cotidiano da vida. Sempre teremos uma situação de instabilidade, que deve ser sempre enfrentada com esforço, com atenção, com dedicação. É um fardo que é de todos e que ao mesmo tempo é de cada um. É um fardo individual e que se reflete na vida da comunidade.

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Esse pensamento é o que permeia o que você vê ao seu redor aqui e que tanto impressionou você e que impressiona outros visitantes. Esse pequeno brinquedo, algo que pode ser considerado como um detalhe ante as dificuldades que enfrentamos diariamente, acaba definindo em termos macroscópicos, como nós enfrentamos a vida com um espírito de comunidade e de companheirismo.

É como uma corda prestes a se romper.

É como uma pessoa se equilibrando sobre uma corda bamba!

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