O maior pecado de Dilma: como um erro de meia década atrás levou ao impeachment

O maior pecado de Dilma: como um erro de meia década atrás levou ao impeachment

(superinteressante)
POR Alexandre Versignassi

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Todo mundo sabe qual é a resposta mais canalha para a tradicional pergunta de entrevista de emprego:
– Qual o seu maior defeito?
– Sou perfeccionista demais. Não sossego enquanto tudo não estiver c-e-r-t-i-n-h-o.

Tradução: “Eu não tenho defeitos”.  À merda, meu filho.

Dilma, esses dias, cometeu algo da mesma estirpe. À pergunta “Qual foi o seu maior erro?”, ela respondeu: “Ter aceitado o Temer como meu vice”.

Tradução: “Eu nunca errei”.

Diante uma resposta tão isenta de verdade, me atrevo a responder por conta própria. O maior erro de Dilma se deu no dia 31 de agosto de 2011. O Brasil vinha de um crescimento anual recorde: 7,5% em 2010 – o maior aumento de PIB desde 1986, quando o país teve um ano chinês em meio à (efêmera) euforia do Plano Cruzado.

2011 prometia um índice de crescimento bem mais modesto: na faixa de 3%. Mesmo assim, já era o dobro do crescimento dos EUA, em crise, e uma sambada na cara da Europa, que amargava sua maior recessão desde a Segunda Guerra.

A inflação também começava a sair da toca naquele agosto de cinco anos atrás. Tinha fechado 2010 em 5,9%, maior nível em seis anos. Natural: crescimento econômico puxa inflação – os ganhos da população aumentam, começa a circular mais dinheiro, e, se a produção de bens e serviços não acompanhar a quantidade extra de dinheiro na praça, os preços sobem.

Ciente do problema, o Banco Central vinha subindo a taxa de juros paulatinamente. De 8,5% no começo de 2010 até 12,5% em agosto de 2011. Subir a taxa de juros significa drenar dinheiro da economia, o que diminui a pressão inflacionária. O efeito colateral desse remédio contra a inflação não é banal. Ele freia o próprio crescimento da economia. Mas o País estava com a imunidade alta: mesmo com os juros subindo, vínhamos de um crescimento recorde. E caminhávamos para mais um ano de PIB gordo.

Aí entra Dilma. E seu maior erro. Ela e o trapalhão Guido Mantega chamaram o Banco Central na chincha e demandaram, exigiram, que os juros começassem a cair já, para deixar a economia crescer sem freio. Faltava combinar com a inflação. Ela continuava crescendo, com tudo apontando que o teto da meta do BC (6,5%) acabaria estourado naquela.

Mas dane-se. Numa atitude imperial, Dilma forçou o BC a baixar os juros, torcendo para a que a inflação caísse por vontade divina – ou por respeito aos seus milhões de votos.

A baixa dos juros, então, veio feroz. Quase 50% de queda – despencando dos 12,5% de agosto de 2011 para 7,15% no começo de 2013. A inflação continuou pressionando. Para segurar o dragão, Dilma adotou artificialismos: congelou o preço da gasolina (sangrando a Petrobras) e baixou as tarifas e energia ma marra. Esse cabresto nos preços controlados manteve a inflação relativamente quieta, na faixa dos 6%. E lhe garantiu a reeleição.

Fechadas as urnas, o governo liberou os aumentos dos preços controlados – de outra forma, levaria a Petrobras à lona e destruiria nossa infraestrutura de energia elétrica. Aí a barragem dos preços represados estourou, e a inflação deu as caras de vez. Saltamos de 6,5% em 2014 para 10,7% em 2015. Quase 50% de aumento. O que os juros tinham caído lá atrás a inflação subiu aqui na frente.

Não foi uma coincidência de números. Dilma apenas colhia a cicuta que tinha plantado em agosto de 2011, ao forçar uma baixa de juros no pior momento possível, ignorando 200 anos de teoria econômica.

Com a inflação, veio a queda de popularidade. Sem popularidade, ela perdeu o Congresso. Sem o Congresso acabou picada por sua cobra criada, o PMDB.

Sim, Dilma. Seu casamento com Temer não foi exatamente um acerto. Mas o erro que lhe custaria o cargo foi outro: o de agosto de 2011, que completa 5 anos justo agora. A economia não perdoa.

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