QUANTO VOCÊ GANHA POR MÊS PARA DESISTIR DE SEUS SONHOS?

QUANTO VOCÊ GANHA POR MÊS PARA DESISTIR DE SEUS SONHOS?

A vida precisa de pausas. É a hora em que a alma respira, olha para si e analisa o que está sendo feito.

23b82422d7c1cbbb2c7c53be17e7dc3e.jpg Foto retirada da internet

Era tardezinha, o sol se escondia por detrás dos baixos prédios das ruas estreitas. As sombras convidavam o povo a se reunir nas calçadas da avenida. Uma pequena multidão dispersa sentia a vida pulsar nos últimos raios de sol. Era fim de expediente, de aula, de obrigações. Era hora de relaxar e se entregar à morgação. Os carros passavam lentamente por entre as pessoas, que despreocupadas ignoravam o perigoso tráfego urbano. Havia carros, motos e ônibus, e dentro destes, vidas encharcadas de cansaço e pouca esperança.

De pé, dentro do lotado ônibus coletivo posso observar os mais diferentes rostos que, ao mesmo tempo, mostram-se iguais em seu tedioso cansaço da vida. À minha esquerda uma dupla de homens de meia idade conversa freneticamente em volume máximo sobre assuntos que ninguém mais tem interesse de ouvir. O sotaque paulistano adquirido após alguma temporada pela região sudeste, faz com que os ouvintes nordestinos não consigam ignorar o que está sendo falado.

Olhando através da janela, o “paulistano 1” exclama indignado.

– Que tanta gente na rua! O povo aqui não trabalha? Bando de desocupados!

O “paulistano 2” olha para a rua e não esboça qualquer sentimento ou fala, enquanto assiste vídeos virais através de seu smartphone.

O ônibus segue viagem, pessoas desembarcam, outras embarcam. Todas com a mesma cara cansada. A vida continua a girar.

11mai2014---1399891010467_956x500.jpg Foto: internet

É um novo dia. Quem trabalha com pessoas está obrigado a dar atenção às suas mais profundas indagações a respeito das coisas da vida. A maior recorrência está nas queixas pelas escolhas feitas ao longo dos anos. Gente velha queixando-se por ter de andar pela rua com o auxílio de uma bengala, por sentir vergonha, uma vez que já foi jovem, bonita e forte, disposta a resolver qualquer problema, independente das barreiras psicológicas e físicas.

Estas pessoas parecem ser maioria no mundo. Muitos anos vividos, e mesmo assim continuam sem entender que o sacrifício que fizeram foi em vão. No final, a morte virá cheia de dores como companhia. Ter se entregado ao sacrifício não terá adiantado de nada.

Vivemos baseados numa cultura que endeusa a ideia de sofrimento.

Se Jesus sofreu, quem sou eu para ser feliz? Essa absurda indagação faz as pessoas ficarem cegas diante da beleza da vida. Entregam-se ao culto da dor, e fazem do sacrifício seu modo de viver.

Em épocas de juventude, quando os ideais e os sonhos gritam por libertar-se, surge na alma a vontade de levar adiante os planos que podem conduzir ao sucesso. Mas o que é isto afinal?

Sentir-se realizado pelo que faz e não pelo dinheiro que recebe.

Pouca gente está disposta a pagar este preço, uma vez que o mundo diz que temos que ganhar cada vez mais, independente do esforço que teremos que fazer para isso. É nessa hora que os sonhos de ideologia são assassinados. O homem deixa de ter a alma jovem e torna-se adulto.

Está na hora de correr para o trabalho. Muitos acordam ainda de madrugada, fazem a marmita, correm para o ponto do ônibus com medo dos assaltantes que já estão na espreita. Então viajam horas até o outro lado da cidade caótica, onde produzem mais e mais. O dinheiro cresce nas mãos dos grandes. Os pequenos continuam pequenos, mas seguem o fluxo, esperando um final feliz que nunca vai chegar. Correm para o ponto do ônibus, já anoiteceu e está lotado. Depois de horas, chegam em casa, preparam o jantar e a marmita para amanhã. Já são onze da noite e só restam umas quatro horas para dormir. O ciclo se repete e será eternamente assim se não parar para pensar.

Mas quem tem tempo para pensar? Quando chegar o mês das férias, ninguém vai desperdiçá-las pensando, mas sim pegando um avião de volta para o interior, onde as horas passam mais devagar, as pessoas vagabundeiam no final da tarde, nas ruas por onde passam ônibus cheios de caras cansadas e abismadas por verem que existe gente “desocupada” no mundo.

Estar desocupado difere de ser desocupado. A vida precisa de pausas. É a hora em que a alma respira, olha para si e analisa o que está sendo feito. Estar no mundo precisa ter alguma justificativa, mesmo que seja apenas fazer feliz a si mesmo. Isto é o mínimo, o básico necessário para ser capaz de fazer a vida de outro alguém um momento agradável. É preciso investir em si mesmo, e isso demanda tempo. O valor que o tempo tem é inestimável, mas na correria do cotidiano, se torna mensurável monetariamente.

cutfkuffuyk.jpg Foto: @jhons_cass

Na corrida pelo pódio do sucesso, onde a renda mensal se tornou o parâmetro mais importante, esquece-se que a vida é uma só, que o corpo não suporta muito esforço, que a mente vai chorar nas horas onde o silêncio vai reinar, seja no escuro do quarto, na intimidade do banheiro, ou inevitavelmente no final dos dias onde só sequelas restarão. Restará também a certeza de que após a morte, a vida na Terra continua independente se o indivíduo foi feliz ou não. O universo continuará a se expandir, as estrelas a morrer e ninguém tem o poder de fazer nada a respeito, a não ser no próprio universo particular chamado individualidade.

Cuidar da individualidade é dar tempo ao tempo, olhar ao redor, perceber o que precisa ser melhorado no trabalho, nos relacionamentos, no próprio corpo e no espírito. Protelar esse momento é ignorar a beleza da vida, não perceber as cores das coisas bonitas da cidade, os telhados frequentados pelos passarinhos, as árvores com suas sombras, a música da vida que toca seu refrão sem parar.

Para ouvi-la é vital o silencio, a pausa, o tempo. Essa música precisa ter um refrão bonito, ou então não vale a pena estar aqui. Quando tudo estiver escuro, ouça a música da vida e dance, no melhor sentido da palavra.

P.S.: este texto foi livremente inspirado na vida cotidiana; na música “Eu não tenho um barco, disse a árvore” de Cícero; no poema “Pulsar” de Augusto de Campos e no filme “Dançando no escuro” de Lars Von Trier.

Eu não tenho um barco, disse a árvore (Cícero), num clipe de Júlia Medeiros.

O Pulsar, de Augusto de Campos, com música de Caetano Veloso

Trailer do filme Dançando no escuro, de Lars Von Trier

 

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