ENJOY THE SILENCE – DEPECHE MODE E A CRÔNICA DO SILÊNCIO

ENJOY THE SILENCE – DEPECHE MODE E A CRÔNICA DO SILÊNCIO

Em 1990, a banda inglesa Depeche Mode brindou o mundo com “Enjoy the Silence”. Canção antológica do grupo que levou à reflexão sobre a importância do entendimento além das palavras. Promessas foram feitas para serem quebradas, o sentimento é intenso, as palavras são banais, desfrute o silêncio. É o que conclama a música que nunca foi tão relevante quanto nos dias atuais, onde a celeuma e a balbúrdia viraram regras de convivência.

Desfrute o silêncio. É o que clama “Enjoy the Silence”, a canção icônica do Depeche Mode. Lançada nos idos de 1990, a música é calcada pela cadência eletrônica retumbante e a inconfundível voz de barítono de Dave Gahan, marcas registradas da banda inglesa. No videoclipe, dirigido por Anton Corbijn – fotógrafo holandês, diretor criativo da produção visual de bandas como o U2 – somos conduzidos pelo vocalista em traje de rei, que leva sua cadeirinha de montar pelo mundo em busca de um recanto sossegado. Assim, embalados pela melodia, passeamos pelas Highlands da Escócia, a Costa do Algarve em Portugal e finalmente os Alpes Suíços. O livro “O Pequeno Príncipe” de Saint-Exupéry foi a inspiração visual para a construção do clipe.

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É até irônico que uma banda musical componha uma canção de louvor ao silêncio. Afinal, a única forma de expressar suas ideias é através do som. Mas é nesse paradoxo sonoro que o grupo encontra sua melhor forma de expressão. As palavras se unem harmonicamente para compor um oximoro triunfal. Silêncio ensurdecedor, quietude ressonante, algazarra muda.

A música nos leva a uma reflexão sobre a importância do silêncio. Parafraseando a canção, se tudo que eu quero está aqui nos meus braços, as palavras são desnecessárias. Segundo a letra, promessas foram feitas para serem quebradas, sentimentos são intensos, palavras não têm significado. Somos vítimas de nossa própria necessidade de se expressar.

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Até meio século atrás, numa perspectiva conservadora, ser reservado era a métrica das relações interpessoais. Mas a revolução cultural pela qual o mundo passou em meados do extinto Século XX trouxe uma nova tendência. Nessa nova era do “express yourself”, viver numa concha era o novo pecado capital. Se solte, se manifeste, fale, grite, mexa-se, dance. Toda forma de expressão era valorizada.

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A transformação tecnológica da comunicação na última década e meia trouxe uma vintena de novas formas de se expressar. A grande teia mundial se associou às redes sociais e aos smartphones para aproximar as pessoas. Nunca estivemos tão distantes. Youtube, Snapchat, Whats App, Facebook, seguidos de muitos etcéteras, compõem a nova linguagem do “fale o que quiser”. A internet se transformou numa fábrica de opiniões. Todo mundo acha que tem o julgamento definitivo sobre aquele filme da Marvel, o último livro da J. K. Rowling ou o novo penteado da Anitta. Nesse admirável mundo novo de análises e resenhas virtuais, somos bombardeados de superficialidades, inundados de achismos e soterrados por ruído.

Rubem Alves, avatar de lucidez em meio a tanta mesmice, disse: “sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir”. Vivemos numa realidade onde as pessoas estão fascinadas com o som da própria voz. Como criança brincando com um gravador. Conversar é falar o que pensa, seus gostos e desgostos. O momento em que o outro fala é tão somente a espera entediante antes de podermos finalmente voltar a falar. Nossa opinião virou dogma, a nova maravilha da humanidade, ápice do bom gosto que sobrepuja qualquer ponto de vista alheio. É o grande martelo da doxa. E de repente, tudo é tão fugaz…

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O silêncio. Desprezado na mesma medida em que é tão poderoso. Nada é mais marcante num discurso do que as pausas. É o orador reforçando o que realmente importa na sua fala. Silêncio é sossego, quietude, paz para a alma. Quando as palavras transbordam da boca sem controle, sem pensar, provavelmente machucam, no mínimo são vazias. Talvez precisemos reaprender o sentido da expressão. Buscar aquele recanto tranquilo dentro de nós. Ouvir a própria respiração, meditar, calar para ser eloquente.

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Depeche Mode, banda cujo nome significa literalmente “moda passageira” entrou para a História com uma canção de louvor ao silêncio. Mas antes de tudo, “Enjoy the silence” é uma música sobre sentimento, sobre buscar aquilo que é essencial. É uma ode ao amor, poesia romântica em forma de letra e melodia. Afinal, o prazer fica, mas a dor também. É preciso encontrar o equilíbrio, a serenidade. Perceber que o bem precioso que você sempre quis está bem aqui nos seus braços. Desfrute o silêncio!

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