ABRAÇOS, GENTILEZAS, REDES, COMUNIDADES

ABRAÇOS, GENTILEZAS, REDES, COMUNIDADES

Vivemos numa situação de emoções momentâneas, demonstrações de afeto passageiras, relações fugazes. Redes fazem-se e desfazem-se com uma facilidade tremenda. “Tudo que era sólido se desmancha no ar” – Karl Marx

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Vivemos momentos de uma desestruturação praticamente absoluta em nossa sociedade, onde nada dura muito tempo, onde as relações tem se tornado cada vez mais superficiais, o individual prevalecido em detrimento do coletivo. “Tudo que é sólido de desmancha no ar”, já nos avisava um velho barbudo no século XIX. E essa se tornou a marca dos séculos posteriores e hoje é a (des)estrutura da nossa contemporaneidade.

Diante desse quadro, tornam-se cada vez mais comuns movimentos como “abraços grátis”, “gentileza gera gentileza”. Chegamos em uma liquidez tão intensa da nossa sociedade que o carinho é oferecido na rua de maneira gratuita e que o óbvio precisa ser lembrado e enfatizado. Contudo, onde está o sentido e o sentimento dessas relações tão fugazes? Um abraço é, sem sombra de dúvidas, reconfortante, aconchegante. Ser gentil é essencial em nosso espaço coletivo, traz em si o respeito pelo outro. Porém o que parece prevalecer é a satisfação momentânea, rápida, naqueles poucos segundos. E, então, o momentâneo passa a ser relevante, passa a ser importante, substituindo o duradouro. A superficialidade passa a ser a marca registrada de relações nas quais precisamos apelar para desconhecidos para sermos abraçados. O desrespeito e a intolerância são as características de uma sociedade a qual precisamos fazer campanhas sobre ser gentil.

Relações sociais tão rasas geram problemas graves para a sociedade como um todo. Até onde chegaremos com isso? Talvez já tenhamos chegado em um nível preocupante e nem nos atentamos. Um nível no qual as relações são muito mais “online” do que “offline”. Um nível no qual o que mede a popularidade é a quantidade de curtidas, a quantidade de visualizações no YouTube, ou a quantidade de amigos no Facebook. Hoje o conceito de “rede social” prevalece e a ideia de “comunidade” vem sendo gradativamente abandonada. Na “rede” as relações não são rígidas e, assim como o fio tecido pela aranha, as conexões entre os membros das redes são facilmente quebradas e substituídas por outras conexões. Os membros das “redes” plugam e desplugam de forma instantânea em um simples “bloquear” e “fazer nova amizade”. As redes satisfazem o narciso, facilitam com que falemos com “espelhos” de nós mesmos. Na comunidade as relações apresentam um peso maior. Ela precede o indivíduo, já com normas de convivência estabelecidas, com tradições que regem a vivência dentro da mesma. Para cortarmos contatos em um comunidade o trabalho é maior, somos confrontados e precisamos nos explicar. A comunidade é superior a individualidade, nela o narciso é muitas vezes contido e acabamos por conviver com o diferente, com aquele que não pensa como nós, que não são ecos de nossos pensamentos.

Não há dúvida alguma de que a sociedade é um ser vivo, que muda a cada instante. A configuração social de hoje será diferente da configuração social de séculos atrás. A visão que temos hoje de nós mesmos e do meio em que estamos inseridos é outra, e influência na forma como estabelecemos nossas relações. Mas, qual é a estrutura de um espaço social no qual as ligações entre um e outro são tão finas e inseguras? Qual o impacto que tal (des)estrutura tem sobre os indivíduos e sobre a coletividade? Não há como voltar atrás e nem devemos buscar isso, mas que um equilíbrio precisa ser encontrado, isso vem sendo cada vez mais nítido. Os laços estabelecidos entre os componentes das “redes” precisam ser solidificados. Em um ambiente “offline” não estamos protegidos por uma tela de LCD (ou LED), não estamos sempre no conforto de nossas casas, onde apertamos um botão e ficamos “invisíveis” ou “bloqueamos” o outro. No mundo “face a face” precisamos conviver com o diferente, precisamos respeitar os outros, precisamos ouvir e ponderar nossas ações. Mas, isso não pode ser feito com movimentos superficiais e rápidos, com simples “abraços grátis” ou “pequenas gentilizas”. “Abraços grátis” satisfazem o prazer e a necessidade momentânea, mas não atingem o profundo da alma, e continua-se vazio e sedento. A gentiliza que não é internalizada, que não se torna cotidiana é falsa, hipócrita, e esquecida na primeira curva sem sinalizar, na primeira fechada de trânsito. O grande desafio de nossa sociedade líquida, de relações tão fluidas é justamente esse. Encontrar o balanço não é fácil em momento algum, é um desafio da vivência social. Que busquemos esse equilíbrio a todo instante, respeitando uns aos outros, estabelecendo laços profundos, sem se preocupar com quantidades, com quantos, com números. Mas, nos preocupando com qualidades, com o indivíduo em si, em sua profundidade, em sua humanidade.

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