ALQUIMIA DAS DORES HUMANAS

ALQUIMIA DAS DORES HUMANAS

Desde os tempos mais remotos da civilização, as desventuras humanas tem sido matéria para a arte, seja no âmbito da literatura, da música, e das mais variadas manifestações. Em um processo quase alquímico, o artista transforma emoções tais como angústia, medo, melancolia, raiva e mágoa em obras fundamentalmente belas. Mas e o homem comum, o que pode fazer com suas dores? O que de fato a arte pode nos ensinar a respeito da superação do sofrimento?

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“O poeta é um fingidor”: é um verso de Fernando Pessoa que vem surpreender os mais desavisados. Já que a tônica atual parece ser regida pela busca do genuíno sempre que nos deparamos com a palavra “arte”, é natural a vertigem ao lermos que o poeta “finge tão completamente”. Mas do que trata esse fingimento?

Fernando, que é Pessoa de sobrenome e pessoa por definição, conclui seu poema dizendo que o poeta “chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”. Isso nos faz inferir que embora não pareça clara a linha que separa de um lado os artistas e de outro os homens que se dizem comuns, um elo liga todos eles: “todo mundo é parecido, quando sente dor”. É m verso de Dulce Quental musicado por Frejat que aproxima todos os seres humanos pelo aspecto do padecimento.

Dessa forma, esse fingimento a que alude o grande poeta português poderíamos batizar enquanto “alquimia da dor”, ou seja, a habilidade de transformar a angústia em matéria-prima da criação artística. E aqui podemos nos lembrar de Drummond olhando o retrato de Itabira: “é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”. Suas lembranças por vezes embutidas de tristeza acerca da sua infância no interior de Minas povoam uma parte significativa dos seus poemas de maior beleza. Ou ainda da música Drão, na qual Gilberto Gil se baseia na dor do rompimento para versar de forma especialmente bela sobre o amor, que feito grão: “Morre, nasce trigo. Vive, morre pão”.

É interessante pensar nesta face do fazer artístico: a transformação da melancolia em algo novo, ainda que composto pelo mesmo elemento. O artista então traveste sua angústia em uma dor que se poderia dizer já “reagida”. Todavia, se não somos todos, pelo menos a princípio, providos de talentos artísticos, torna-se necessário buscar entre as nossas habilidades – e aqui é válido enfatizar a plasticidade humana, que pela reflexão e prática é capaz de conseguir feitos inesperados – aquelas que nos podem servir de instrumentos para lidar com as feridas que se abrem provenientes de perdas e frustrações. Algumas pessoas encontram sua cura fazendo cursos ou viagens, explorando novas faces de si mesmas, realizando trabalhos sociais, ou se dedicando ao artesanato, ao esporte, que são apenas alguns exemplos.

Por muitas vezes, diante de uma impossibilidade, cabe-nos na medida em que nos sentimos minimamente capazes, nos reinventarmos. E é aí que agora se aproximam a arte e a vida: a possibilidade de encontrar matéria na impossibilidade. Reza a legítima sabedoria popular que o que não nos mata nos fortalece. Haveremos então de entender e aceitar que, enquanto homens, não poderemos evitar golpes no decorrer da vida. E assim poderemos aprender a nossa própria “química” para fazer reagir nossas feridas com habilidades muito singulares e capazes de nos proporcionar, enquanto produto mais valioso que o ouro de Midas, a infinita possibilidade de melhora, sem fingimentos de nenhuma natureza.

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