QUAL APRENDIZADO UMA CITAÇÃO CLICHÊ DE CLARICE LISPECTOR NOS DEIXA ALÉM DE SEU LEGADO LITERÁRIO

QUAL APRENDIZADO UMA CITAÇÃO CLICHÊ DE CLARICE LISPECTOR NOS DEIXA ALÉM DE SEU LEGADO LITERÁRIO

Em tempos de massiva exposição midiática, uma sugestão reflexiva sobre o que podemos extrair de benéfico quando o hábito de checar fontes é considerado quase extinto, e a frase de efeito de uma renomada autora viraliza.

e1907a2463aa4edaac3bb0c5b408bd28.jpg

Clarice mulher. Clarice mãe. Clarice autora. Clarice autêntica. A frente de seu próprio tempo. Em uma de suas raras aparições midiáticas, em 1º de dezembro de 1977, é entrevistada por Júlio Lerner, jornalista da TV Cultura de São Paulo no programa “Panorama”. Nela, mostra-nos como sermos livres de preconceitos literários. E faz referência a uma conversa sobre um de seus livros “Paixão Segundo G.H”.

Com um olhar que intimida, transmitiu ao entrevistador fragilidade. Fragilidade esta que se encontrava refletida em sua saúde. Acometida por um grave câncer no ovário, faleceria 10 meses depois de conceder a entrevista, no dia 9 de dezembro aos 57 anos, sendo este o dia anterior ao seu aniversário. Na gravação houve o pedido de que o resultado apenas fosse divulgado após sua morte. E assim se fez. Ela falece pouco tempo depois da publicação de seu romance mais recente “A Hora da Estrela”. Viveu com o mais puro objetivo de apenas escrever, sem determinar um tipo de público, como a própria responde sem meias palavras. Uma escritora que nunca se assumiu profissional por ter comportamento felino para a escrita: escrevia apenas quando queria. Fazia questão de se manter amadora para manter a liberdade. Queria estar longe de um rótulo que a isolava, e reafirmou categoricamente que tudo o que dizia era a maior bobagem e que ainda assim era considerada como uma coisa linda ou uma coisa boba.

Este contexto serve como embasamento para uma célebre frase que envolve de um lado, o leitor que compreende o livro, e do outro, o leitor que não o compreende: “Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Ou toca, ou não toca.” Este trecho ficou eternamente popularizada em murais de Facebook e postagens no Twitter. Em tempos de comunicação em massa pelas redes sociais, muitos creem se tratar de uma frase redigida em um livro, e que mais tarde se popularizou. Porém, sua genialidade passa despercebida quando tirada de ordem e principalmente de contexto. A seguir a frase original: “Depende. Por exemplo, o meu livro “A Paixão Segundo G.H”, um professor de português do Pedro II veio até minha casa e disse que leu quatro vezes e ainda não sabe do que se trata. No dia seguinte uma jovem de 17 anos, universitária, disse que este é o livro de cabeceira dela. Quer dizer, não dá para entender. Também em relação ao outros trabalhos, ou toca ou não toca. Suponho que não entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Tanto que o professor de português e literatura, que deveria ser o mais apto a me entender, não me entendia. E a moça de 17 anos lia e relia o livro, não é? O que é um alívio.“ Na origem desta resposta em tom de desabafo, Clarice é questionada pessoalmente sobre sua relação com o jovem universitário, afirmando que os recebe para um café, outrora em sua casa como amigos, e percebe com surpresa que eles estão “na dela”, ou seja, mesmo quando se sente isolada, percebe a quantidade de universitários muito jovens que estão completamente ao seu lado, classificando como gratificante. Sobre o fato de pouco se ler entre as novas gerações, faz mais um destaque aos universitários falando sobre a imposição da leitura que ainda ocorre nos dias atuais. Quando diz que não está a par dos outros grupos, mostra como era ligada a este público, mesmo que eles demonstrem medo de atrapalhá-la em suas abordagens.

Longe de ser uma figura antipática, algo que ficou estereotipado por uma entrevista na qual claramente estava cansada, afirmando inclusive isto, Clarice demonstra com sensibilidade os medos mundanos mais comuns como o da solidão da condição humana, e a humildade de responder calmamente a uma questão com um sonoro: _ Não faço a menor ideia! A frase contraditória em questão neste artigo denota o alto padrão literário que compunha sua obra. Seu enaltecimento era tamanho que a colocava em um pedestal no qual jamais desejou estar. Sua literatura era acessível, advinda de devaneios de uma mente explícita que transitava no mundo das ideias com um pé na realidade que nos cerca. Repleta de conflitos internos, descoberta do eu próprio, lucidez variante e apreciação do que há de mais simples e complexo na elucidação de transtornos expostos pelas personagens.

Os ditos cultos se sentem confortáveis em eleger e segregar a Literatura, classificando-a em níveis, do mais alto até o mais baixo e se engrandecem em escarnear autores populares inclusive fora do Brasil por possuírem uma escrita mais fluida e informal, deixando-os a margem do que é considerado de qualidade. Esquecem-se e deixam de lado o fato da identificação quase imediata do público em geral em conjunto com sua aceitação devido ao academicismo arcaico. Consideram uma escrita mais difícil de compreender como requisito de valor, esquecendo-se de levar em consideração a complexidade e profundidade dos pensamentos expostos, seja de modo displicente ou mais rebuscado. Ainda nos dias atuais determinados grupos se sentem melhor preparados para compreender da maneira ‘correta’ uma obra literária devido a bagagem acadêmica que carregam, listando os cursos realizados, palestras que frequentaram, seu nível acadêmico, tipo de literatura que já consumiram, como se estes fatores somados pudessem por si determinar se estarão aptos a realizar uma interpretação de texto conveniente aos seus propósitos e que satisfizessem seu ego. É quase como se quisessem estipular uma fórmula pela qual todos poderiam tirar maior proveito de uma obra se a seguissem a risca. Esquecem que a Literatura pertence a uma ciência inexata, que depende da combinação da bagagem cultural e leitura de mundo de cada indivíduo e a absorção de conteúdo irá variar de pessoa para pessoa, grupo para grupo, e até mesmo de uma mesma pessoa em uma determinada época de sua vida para esta mesma pessoa e uma época diferente de sua vida.

Neste caso, Clarice nos esclarece quando expõe que um professor muitas vezes não compreende com os olhos o que uma jovem estudante entende com o coração. Clarice aparenta ser um enigma a ser desvendado e suas respostas são como peças de um quebra cabeças que compõe a essência e a complexidade do que é ser. Uma personalidade intrigante que deixou não apenas um legado inegável para a cultura mundial, mas também muito que refletir sobre sua postura em relação ao mundo. Sábia quando fala com a sinceridade de um sonoro: Não.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s