GABO, QUANDO A VIDA ACABA?

GABO, QUANDO A VIDA ACABA?

Desconfio ter uma alma envelhecida. Sendo assim, enxergo o mundo calmamente e percebo a cada dia que apenas estamos sendo o tempo todo. Não importa quantos anos se tem, quanto tempo passe, daqui a muitos anos, no fim da nossa estrada, ainda estaremos sendo. E quem está sendo, na verdade, nunca chega ao fim…

980full-gabriel-garcia-marquez.jpg

Existem dois tipos de pessoas no mundo: aquelas que em barulho veem a vida, contando o tempo em marcações; e aquelas que em silêncio observam as entrelinhas dela, percebendo que não há tempo, só há presente. Gabriel Garcia Márquez, ou Gabo como era chamado, observava as entrelinhas da vida com tanta lucidez que seu olhar se transformou em realismo fantástico. Percebeu o presente tão vivo que não foi possível vê-lo em suas obras. E assim, vagando consciente que vagava, encantou o imaginário latino no século XX. Em duas de suas obras mais famosas, Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos do Cólera, Garcia Márquez, nos transporta a realidades, ora reais e ora imaginadas. Enquanto Cem Anos de Solidão apresenta a saga da família Buendía, tendo por plano de fundo Úrsula Iguaran e sua complexa árvore genealógica (só quem leu sabe o drama dos nomes repetidos kkk), O Amor nos Tempos do Cólera narra o amor de Florentino Ariza por Fermina Daza, que ao longo do tempo muda profundamente suas perspectivas e visões a cerca de si mesmos.

Sendo completamente diferente em suas tramas, as duas obras do autor trazem as mesmas reflexões: quem se é ao fim da vida? Quais vidas vivemos ao chegar ao final da estrada? O que resta de nós depois do tempo passado? Atravessando décadas, Gabriel Garcia Márquez, nos faz pensar a sociedade a partir do ponto de vista dos idosos, dos que para nós, mesmo que sem querer, acreditamos não viver mais. Uma interpretação ignorada pelo tempo. A forte influência de ser criado pelos avós talvez tenha sido a motivação para trazer em seus livros uma análise marcante dos olhares e impressões desses personagens, abrindo a oportunidade de se repensar o tempo, o amor, a força da vida em cada etapa dela. É curioso se dar conta que há nos idosos mais passado do que presente, muito mais passado do que futuro. Gabo, apresenta essa lógica em Cem Anos de Solidão e a desconstrói em O Amor nos Tempos do Cólera.

8250_640.jpg Úrsula Iguaran / Cem Anos De Solidão – Carybé

A solidão e a inutilidade do tempo também são pontos marcantes em ambos os textos. Vemos os personagens, pouco a pouco, se interiorizando. Cada obra, como já citado, aponta um fim diferente nesse caminho curto que é envelhecer. Assim, a solidão e a inutilidade de Gabo são tratadas como escolhas íntimas, tão íntimas como amar. É possível fazer da vida um espetáculo observado e não mais interpretado como antes, ou não. Ainda é possível reescrever cada cena da peça. A diferença entre Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos do Cólera é que as vezes essa escolha é sua, e outras é do destino, que com sua permissão, escolhe por você.

Dentro desses contextos, vemos a vida nua nos humanos tão humanos de García Márquez. Em suas obras, a ideia de que a vida acaba quando as perspectivas de futuro se esvaem é forte e quase natural. O vento do futuro precisa continuar soprando, precisa – mesmo que lento – tremer as velas ou então o mar não faz mais sentido. De que vale todo o azul do mar sem ondas? De que vale a vida sem futuro? Ondas e futuros são sinônimos, sinônimos significativos para Gabriel García Márquez. O autor deixa claro que a vida se mantem na medida em que damos significado as nossas insignificâncias, como diria Manoel de Barros em um de seus poemas. A ausência ou permanência desses significados é o que nos mantem em movimento.

É como se em cada linha de seus livros o autor nos dissesse que o tempo de fato não existe. Gabo nos apresenta a oportunidade única do presente, que é o agora. Sob essa perspectiva, a idade dos seus personagens tem total importância na construção dessa ideia. Trabalhar o tempo através dos que já não o percebem mais como antes é mudar a lógica da sua compreensão e propor uma análise sobre qual tempo de fato vivemos. Que tempo é melhor: aquele em que se tem mais futuro que passado ou aquele em que se tem mais passado que futuro? Garcia Márquez nos deixa esse questionamento. A partir disso e observando outros paradigmas, não se pode negar a atuação direta que o sistema capitalista tem deixado na nossa maneira de ver o outro. O quesito utilidade tem substituído à necessidade dos sentimentos. Se não produzimos não servimos, se não vivermos intensamente, não estamos de fato vivos, se não somos jovens, não somos mais pessoas por inteiro. Somos apenas uma vela, queimando chama a chama, até apagar. Todos esses aspectos são relacionados nos títulos de García Márquez com uma sutileza quase imperceptível.

fermina.png Florentino Ariza e Fermina Daza / Cena do Filme com roteiro baseado no livro O Amor nos Tempos do Cólera

E depois de mergulhar nas ideias do autor, de devanear sobre suas inúmeras possibilidades de interpretação, desconfio ter uma alma envelhecida. Desconfio que vejo o tempo como um único momento. A ciranda dos anos que passam é uma musica sem fim e nós a dançamos mesmo sem querer, quase sempre sem perceber seu balançar. Sendo assim, enxergo o mundo calmamente, e percebo a cada dia que apenas estamos sendo o tempo todo. Não importa quantos anos se tem, quanto tempo se passe, daqui a muitos anos, no fim da nossa estrada ainda estaremos sendo. E quem está sendo, na verdade, nunca chega ao fim…

Assim, vemos a arte cumprindo seu papel e nos fazendo ir para além das superficialidades. É a vida que Gabriel Garcia Márquez desvela. A vida em cada fase. O tempo para ele é no fundo um convite a viver!

“Um escritor só escreve um único livro, embora esse livro apareça em muitos tomos, com títulos diversos.” Gabriel Garcia Márquez.

 

Um comentário sobre “GABO, QUANDO A VIDA ACABA?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s