NÃO ME DEIXEM TER CERTEZA DE NADA

NÃO ME DEIXEM TER CERTEZA DE NADA

“Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito…” (William Shakespeare em “Hamlet”, sobre ser recluso e estar cego pelas próprias certezas)

pov.jpg

Eu já disse que odiava filmes antigos, que não gostava de gatos, que nunca usaria um relógio de pulso, que não gostava que me chamassem de Pedro, que ser organizado era coisa de gente problemática, que odiava minha geração, que nunca compraria nada da Nike, que quem não era monogâmico era gente ruim, que meu gênero literário preferido era fantasia infanto-juvenil, que juntaria minhas coisas e iria embora desse país horrível que é o Brasil, que Linkin Park era a melhor banda da história da música, que ninguém era capaz de entender minha obsessão por super-heróis, que passar creme no corpo era coisa de gente fresca, que sertanejo era música ruim, que o professor de matemática me dava notas baixas porque não gostava de mim, que American Pie era comédia inteligente, que os casais não precisavam ficar se beijando no metrô porque poderia deixar outras pessoas desconfortáveis, que Beatles podia ficar enjoativo, que nunca pararia de comer Sucrilhos, que odiava a tecnologia Touch Screen, que queria uma vida simples, sem acontecimentos extraordinários.

Nenhuma dessas opiniões são minhas, não mais. Mas já foram, por mais estranhas que me pareçam hoje. E é engraçado porque me lembro do quão certo eu estava ao declarar ao mundo que aquela era minha forma de pensar e que eu não falava nada somente por falar, que eu tinha argumentos para sustentar minhas opiniões e que eu estava certo. Certo como só quem não tem maturidade está, certo como só quem não conhece nada da vida e acredita nas meias imagens que vê pela janela do quarto, certo como só a insegurança disfarçada de convicção permite ser. E o mais legal de tudo é olhar para essas afirmações com um sorriso, sem arrependimento ou julgando meu eu do passado como alguém menor, pior e com menos potencial, mas feliz por saber dos caminhos que me foram apresentados, dos acontecimentos que mudaram minha perspectiva sobre diversos assuntos, das experiências que me fariam perceber que só raspamos a superfície das reflexões e sentimentos ao percebê-los. Se aprofundar leva tempo, paciência e, principalmente, disposição. E isso só vem com a maturidade – que independe de idade e sim de humildade.

É aquela velha coisa de “Você não sabe até que aconteça com você”. É claro que é possível aprender com os erros de outros e se inspirar em quem venceu desafios, mas nunca será a mesma energia, porque não é a mesma conquista ou a mesma falha. Nada, absolutamente nada se repete, tudo que acontece é diferente, pois as pessoas são diferentes. E, puts, há tanta gente no mundo, tantos pontos de vista, tantas vidas, tantas histórias, o que nos faz perguntar: Como é que podemos dizer que temos certeza de coisa alguma?

Dividimos o mesmo universo, não os mesmos olhos.

Não me deixem ter certeza de nada, por favor. Assim como peço a vocês, não se fechem para as perspectivas diferentes da sua, não julgue absolutamente nada sem ter conhecimento do que se trata, não permita que sentimentos ruins te privem de experiências únicas, não grite sua certeza para ninguém, apenas viva e fale do que conhece e quer conhecer dando a cada assunto a mais sincera e humilde opinião. E no fim da vida, sorria ao confrontar a maior dúvida que há, porque não haverá medo da incerteza, você já estará acostumado a não ter certezas.

Um comentário sobre “NÃO ME DEIXEM TER CERTEZA DE NADA

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s