PROVA OU CONVICÇÃO?

PROVA OU CONVICÇÃO?

Vivemos em um mundo no qual opiniões parecidas são replicadas e opiniões divergentes são deletadas. Onde absorvemos idéias que representam nosso modo de pensar e desprezamos as que são contrárias. Onde nos tornamos cada vez mais iguais aos que pensam de forma parecida e menos tolerantes com os que tem uma visão de mundo diferente.

Sim, o título desse post faz referência a uma suposta frase dita pelos procuradores da Lava-Jato quando denunciaram Lula. Mas esse post não é sobre política, é sobre nossa sociedade. Vivemos em um mundo no qual opiniões parecidas são replicadas e opiniões divergentes são deletadas. E isso vale para a política, para o futebol, para o Facebook… No Facebook, há uma janelinha que se abre do lado direito da tela com a palavra mágica: “deixar de seguir”. Confesse. Você já a apertou quando algum post lhe desagradava, não? Sabe aquele amigo coxinha ou petralha que já lhe cansou? Pois bem. Lá está o botão mágico! Aperte e em segundos aquele amigo seu não aparecerá mais na sua timeline. Nunca mais. A frase do procurador foi compartilhada milhares (para não dizer milhões) de vezes com uma velocidade absurda sem que alguém pensasse dois segundos se aquilo era verdade ou não. Não era. O mesmo vale para a atleta argentina que durante a abertura das Olimpíadas escreveu uma mensagem para o namorado na mão e viu seu recado se transformar em um “fora Temer”. A imagem viralizou, a atleta argentina foi elevada ao patamar de heroína entre os que defendem a saída de Temer, mas ninguém quis saber se aquilo era autêntico ou não.

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Esses são dois exemplos. Mas existem outros. Milhares de outro. A cada dia, se produz uma quantidade enorme de frases, fotos e mensagens que são compartilhadas e publicadas e que não necessariamente são reais. Ninguém quer ter prova do que é compartilhado, mas tem a convicção de que aquilo é real. Podemos ir além, já que hoje o mundo curte sem ler e compartilha sem ver. Diga se você nunca clicou naquele botãozinho de curtir sem sequer ver do que de fato se tratava o texto. Outro dia, aliás, isso aconteceu comigo, mas do lado invertido. Publiquei aqui um texto sobre as mulheres no cinema como uma reflexão sobre o papel secundário que as atrizes muitas vezes têm na sétima arte. Li alguns comentários contrários ao texto que nitidamente demonstravam que a pessoa não abriu o link, mas, valendo-se do título, o criticou. É assim que nossa sociedade se comporta hoje. Uma sociedade “fast food” que consome informação com rapidez voraz, mas que não se atenta a qualquer base real para curtir ou compartilhar.

Desse modo, podemos traçar um paralelo com o futebol. Qual time é melhor: Flamengo ou Fluminense? Corinthians ou Palmeiras? São Paulo ou Santos? Inter ou Grêmio? Poderíamos analisar por alguns critérios variados: quantidade de títulos internacionais ou nacionais, quantidade de pontos na tabela, melhor desempenho em determinado período, etc. Poderíamos ser extremamente racionais na análise, mas o que isso mudaria para o torcedor? Nada. Nenhum torcedor escolhe o time por conta de seu desempenho estatístico. Há enorme paixão envolvida na escolha, bem como outros tantos argumentos que passam necessariamente pela influência familiar e de amigos, ainda que esta possa ser acompanhada de alguma análise racional. Logo, um torcedor fanático pode até saber que o time adversário tem mais pontos ou mais títulos, mas ele não irá se convencer de que aquele time é melhor, simplesmente porque o filtro da paixão por seu clube fará com que, apesar das provas, ele mantenha sua convicção.

É evidente que a crítica feita por meio da frase “não temos prova, mas temos convicção” tratava da necessidade de comprovação de crime para condenar um acusado. Mas a guerra existente de um lado contra outro no Brasil, atualmente, possui a mesma lógica do futebol. Os que defendem Lula, Dilma e o PT, acreditam que tudo, absolutamente tudo, dito contra eles é errado, golpista, coxinha. Da mesma forma, os que são contra os que citei, acreditam que todo petista é ladrão, corrupto e cego. Não há espaço para a opinião divergente, para o contraditório, para o meio termo. E quando existem e desagradam, as pessoas abrem a janela mágica que citei acima e clicam no botão “deixar de seguir”. Ou se não o fazem, o algoritmo do Facebook se encarrega de mostrar mais posts daqueles que você curte do que daqueles que você não concorda.

Voluntaria ou involuntariamente, você acaba por ser levado para um mundo de concordância pelas redes sociais que criam um espaço em que o contraditório tem cada vez menos chance de prosperar. Ao fim e ao cabo, cada curtida nos torna mais próximo de um lado do que de outro. Nossas opiniões, então, são ainda mais reforçadas e nossas convicções ganham mais companhia. E pior: não há espaço sequer para tentar apresentar um argumento contrário. Caso façamos, seguidores e mais seguidores aparecem para nos taxar com esse ou aquele adjetivo. Estamos, assim, ficando todos enjaulados dentro de nossas certezas e, consequentemente, blindados das outras opiniões. É esse fenômeno que justifica o crescente enraivecimento presente nas redes sociais e mesmo fora delas, onde torcidas organizadas marcam encontros para a guerra ou cartazes agressivos se proliferam em manifestações.

Vivemos, então, em um mundo perigoso onde ouvir ao outro virou necessariamente criticar o outro quando ele diverge e replicar quando converge, ainda que com mentiras. A questão em si, o tema ou assunto, acabam por se afogarem nesse mar de curtidas e compartilhamentos frenéticos que a todo instante são feitos para reafirmar nossas convicções, ainda que estas sejam embasadas em leituras rápidas, em textos curtos (alguns com 140 caracteres) de pessoas que escolhemos seguir ou que o Facebook e as demais redes sociais escolhem por nós.

Assim, passamos a viver em ilhotas em que pessoas com os mesmos pensamentos são seguidas, as de opinião contrária são exiladas e nossas convicções são reforçadas. Com o passar do tempo, temos mais enraivecimento, mais convicções, mais adjetivos e, infelizmente, menos pensamento e senso crítico. O futuro não parece promissor…

2 comentários sobre “PROVA OU CONVICÇÃO?

  1. Aos fatos: a frase não existiu no contexto amplamente divulgado. Foi um golpe abaixo da linha da cintura aplicado pelos provedores da confusão. Em segundo lugar, obviamente, é natural, foi Deus, não há dúvida: o inter é melhor do que o grêmio. Delete-se disposição em contrário.

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