A ÚLTIMA BALADA DE BUKOWSKI

A ÚLTIMA BALADA DE BUKOWSKI

Bukowski vai dançar seu último tango com a Dona Morte. Uma novela, uma balada de amor policial onde tudo é tão vivo e vago ao mesmo tempo.

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Pulp é o mais cru de Bukowski. Ao mesmo tempo que sua linguagem corre como uma grossa gota de sangue na tela do computador que escrevia noturnamente: percebe-se no seu texto algumas linhas transvertidas de sonho, mas seu verbo mais mordaz e seu mau humor prevalecem, solidificado é espremido durante toda a trama. Tudo fundido com o mais puro nonsense que ele já tinha apurado durante seus escritos. O livro trata de um detetive murcho que talvez possua algum talento. Nick Belane detetive gordo feio desajeitado. Talvez sua caça por crimes e casos seja um pano encardido de fundo para uma dissecação das mais bizarras situações. Os casos que o detetive se envolve sempre são síndromes de alguma solidão que encosta em seu escritório vazio. Seu maior trabalho era ficar sentado ali esperando as cobranças do aluguel, das jogatinas e das pensões. Enquanto a única coisa que matava; eram moscas que pousavam no seu copo meio cheio e em seu peito suado. Nick Belane não foi o alter ego que brincou com o velho pela ruas de Los Angeles como Chinaski que até é citado no livro como um fantasma de uma livraria. Nick Belane está longe dos portões da selvageria real que é a vida. O detetive mescla com o fantasioso mundo da morte. O que temos então? Depois de várias bebedeiras e cigarros queimados a carcaça de um escritor que vomitou subliteratura para poucos lerem e que fazia de sua vida mitos, lendas, e claro, muitos porres morais e imorais; dentro disso Bukowski traz um livro dentro de sua melhor ficção: o medo da morte. Bukowski sabia que a morte estava a um dedo de seu nariz e então resolveu agarrar suas pernas e ver o que viria após toda essa alucinante jornada.

O que mais poderia vir do último livro de Bukowski a não ser falar da morte, do desejo de escrever mais e produzir como nunca antes até colocar cada virgula como se fosse uma nota de uma sinfonia de Mozart sobre o pai. Pulp vai a lugares que são estranhos num quadro puído. O medo do ser humano é visto em diversos rumos que o texto aborda. A violência do livro é certeira quando cacos de vidro tem utilidades sufocantes na métrica da cena descrita pelo o escritor que dormia com uma dúzia de gatos arrodeados a sua cama. De resto o detetive do livro começa se relacionando com uma tal dona Morte procurando um escritor que já morreu a muito tempo, mas está por aí vivo como um sol. Ela dona Morte diz ter tantos outros escritores servidores da alma humana que não conseguia nem contar nos dedos. A procura da dona veio através de um conhecido que diz confiar em Belane que de fato possui um talento: de se meter onde não devia, mas isso é romantismo do batedor de teclas. Belane não vai em busca de perigo ou se assusta com o que vem pela frente. A normalidade dos acontecimentos é tão óbvia para aqueles que jogam o olhar sobre os capítulos minúsculos, que ao perceber que o tempo que o livro leva para descrever qualquer coisa é o movimento de decomposição fotográfica das palavras em cenas coloridas em tons de preto e branco. Seja os alienígenas ou uma mulher que tem pernas que são asfixiantes. Seja na cruzada de pernas repetitivas. Pode até ser nos revolver nas gavetas ou capangas mal diagramados. O livro vai de uma ponta a outra sem respirar um só instante. O dinamismo que é metralhado no produto bruto das páginas é logo incendiado por uma crise existencial que anda por ali sempre subentendida já característica da filosofia do autor de colocar a humanidade como miséria de si mesma.

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Bukowski era visceral, mas nunca o confunda com chão que pisa, pois ele sabia mais do que ninguém que sempre é preciso sangrar um pouco para escapar ou para ter o que fazer adiante cabe aqui até o velho ditado que: “quem não chora não mama”. A arte ruim de sua dedicatória para a arte de quinta é chapada e impressa não só na folha de rosto do livro, mas durante todo ele todo. Não espere como sempre uma mudança, mas sim uma analise sobre o autor que parecia decidir o que viria logo após o termino do livro. Pulp pode ter trechos da vida do velho safado como foi como estava. Agora sim, talvez, temos mais do próprio autor aqui do que temos no irreal Chinaski que sempre bebe no gargalo da figura mitológica do bêbado culto rabugento chato existencialista que era Bukowski. O que poderia esperar de um livro onde todos os personagens são pinturas de uma Hollywood química, misturada com caricaturas de ruas que fazem o grafismo dos clichês americanos. São muitos cachorros-quentes com cerveja para obter o fim capitalista que arte sempre irá dá depois de toda a transfusão lirica que dança entre o inicio e o fim da criação. Pulp o último livro de Bukowski é um tiro raro como no próprio livro mal atiram, mas arma psicológica está lá sempre apontada para cada um que se coloca a frente do personagem. Nick Belane tem mais cicatrizes do que motivos para viver. Ele já estará cansado de tudo e sua trilha era previsível dentro do seu mundo onde telefones tocam para pessoas que nunca atenderam onde toda metalinguagem será desperdiçadas com ninharias verbais e rotinas. O livro traz o humor plural de pequenas unhas grossas, longe de escatologias, mas sempre com a ferrugem das partes intimas da moralidade. Pulp é uma novela reprisada com um final que o velho Buk já meio que sabia o desfecho mesmo antes de ter escrito. Pulp é o melhor do romance policial sem ter elementos que sustentem olhares de contemplação estilística, pois a cada capitulo o romance policial se transforma numa ficção cientifica que cuspe a sociedade real que Bukowski selou na procura de um pássaro livre do ostracismo.

 

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