TAXI DRIVER: UM CONTO URBANO SOBRE SOLIDÃO, DEVANEIO E TRIBULAÇÃO

TAXI DRIVER: UM CONTO URBANO SOBRE SOLIDÃO, DEVANEIO E TRIBULAÇÃO

Taxi Driver é um dos melhores filmes da década de 1970 e um dos mais inspirados de Martin Scorsese. Uma boa reflexão prática sobre a vivência na cidade grande através de um homem em intensa crise existencial.

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No filme Taxi Driver (1976), um mentalmente instável veterano do Vietnã chamado Travis Bickle (Robert de Niro) arruma um trabalho em Nova York como taxista noturno, e cobre a cidade inteira sob regime de 6 dias por semana. Travis é um homem aparentemente pacato e singelo, mas que se revela perturbado, impulsivo e insano. Esse é o panorama do 5º longa-metragem dirigido por Martin Scorsese.

Inicialmente, a equipe de produtores de Taxi Driver não queria Scorsese na direção devido à sua precocidade e inexperiência no universo do cinema. Além do que, a proposta de conteúdo do filme era bastante atrativa, e muitos queriam dirigi-lo. Apesar da intensa competitividade, Scorsese batalhou duro para conquistar tal direito e acabou ganhando a confiança de Paul Schroder, o homem responsável pelo roteiro e que detinha influência suficiente para recrutar Scorsese ao cargo de diretor. A parceria então foi concretizada, e muitos frutos adviriam dela.

Taxi Driver é um conto urbano sobre solidão, devaneio e tribulação. Sem dúvida, este é um dos melhores filmes da década de 1970, e um dos mais inspirados de Scorsese. A obra é popularmente aclamada devido às performances sólidas e ao realismo gritante. E também, esse foi o filme que projetou os atores Robert de Niro e Jodie Foster à fama e ao reconhecimento mundial.

Em seu núcleo, Taxi Driver é sobre um homem pós-moderno que tenta conviver com a herança de lutar em uma guerra. Agora, de volta à civilização, Travis se sente mais paranoico do que nunca; incapaz de se relacionar integralmente em sociedade, mas ainda assim procurando por aceitação. Travis busca ressurgir após perder a inocência que a América lhe roubou. Secretamente, ele tenta agir como os outros a fim de se sentir mais humano, apesar de seus esforços serem quase sempre mal direcionados.

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Quanto à trilha sonora de Taxi Driver, Bernard Herrmann é digno de ser notado. Suas composições informam muito bem a atmosfera do filme. Em várias cenas, reina o jazz lírico que transmite calor e satisfação; em outras cenas, um som “thrillesco” ameaçador que faz ressoar a raiva crescente de um Travis prestes a liberá-la.

Outro elemento admirável em Taxi Driver é que Scorsese não teve medo de criar um protagonista amargo e antagônico, pois ele acredita na filosofia de que gostar do personagem principal é menos importante do que estar intrigado e envolvido em suas atitudes e comportamentos.

O retrato cinza das grandes cidades

Em Taxi Driver, Scorsese nos mostra que, especialmente nas grandes cidades, enormes muros de separação “envolvem” as pessoas no sentido de que todas elas têm objetivos comuns, mas caminham em direções opostas.

O retrato que Scorsese faz de Nova York (em alegoria a grandes cidades) é cinza.

“Nova York é um esgoto a céu aberto. Cheio de imundícies e escória.”

Em grandes cidades, poluentes são emitidos na proporção em que a saúde se esvai, silenciosamente e aos poucos. Com o ar carregado de poeira e fumaça tóxicas, a expectativa de vida é subtraída do simples ato de respirar, e tal problema emergencial parece não motivar soluções desesperadas.

O cidadão comum que mora em grandes cidades tem plena consciência de que a poluição empesteada no ambiente é provocado por seu próprio comportamento consumista e negligente, e sabe bem que tais circunstâncias pedem por mudanças de atitude radicais, o que parece estar além de sua capacidade.

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Além da imundície e escória, Scorsese quer mostrar como a solidão e a violência explícitas nas ruas podem acometer e transformar um indivíduo até os limites da insanidade. Em dado momento, Travis diz:

“A minha vida inteira, em todo lugar, eu senti a solidão: em bares, festas, nos carros, nas calçadas, em lojas, praças, em todo lugar. Os dias vão, eles não terminam. Toda minha vida foi uma sensação de ter que encontrar algum lugar para ir.”

Para fugir de sua realidade decepcionante, Travis mergulha em mulheres e pornografia, dois dos subterfúgios urbanos recorridos por ele. Mas, apesar das distrações, seus devaneios sempre se regeneram. Travis dirige seu táxi e pode observar outros em situações parecidas: pedestres atravessando a rua e olhando apenas para os próprios pés, ou então transeuntes muito ocupados caminhando pelas calçadas frias, todos desejando ser alguém diferente. Alguém melhor.

“Em cada rua de cada cidade existe um alguém querendo ser alguém.”

É claro, na atual sociedade moderna, “ser alguém” não necessariamente significa evoluir de forma profunda e intensa, mas sim obter qualquer tipo de fama e notoriedade que for possível (nem que seja por alguns segundos).

No filme, Scorsese aborda também a dinâmica da vida urbana noturna, repleta de prazeres, mistérios, vertigens e aventuras. Á noite, quando o instinto da natureza humana é dissecado pela escuridão.

“Todos os animais saem da toca à noite. Prostitutas, sodomitas, drag queens, gays, maconheiros, viciados, insanos e corruptos.”

Insights ocultos em Taxi Driver

A constante espera por mudanças significativas e a incerteza do futuro atormentam a realidade do perdido Travis. Sua depressão e melancolia se retroalimentam e o atacam violentamente, aprisionando-o numa grande espiral de emoções destrutivas que arruínam seus pensamentos e conduzem ao martírio existencial. Seu comportamento dual o faz caminhar em trajetória descendente rumo à insanidade, mas também, essa sua forma de pensar nos faz refletir sobre nossos próprios sentimentos reprimidos e como reagimos perante eles.

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Em uma cena, Travis vai até uma lanchonete tomar café. Antes de fazer o pedido à garçonete, ele põe uma cápsula efervescente de vitamina C em um copo cheio de água, e, enquanto a química acontece, ele consegue refletir por alguns segundos sobre a monotonia de sua vida e a liquidez que perfaz o ambiente que se encontra.

Em outra cena, Betsy (uma executiva de campanha pela qual ele se apaixona) afirma que Travis é uma “contradição humana”. Ele vive dizendo que alguém precisa urgentemente limpar as ruas, mas seu próprio quarto é repleto de sujeira; um antro de devassidão. Travis faz severas críticas a prostitutas, mas regularmente ele assiste a filmes pornográficos. Esse nonsense é perceptível em várias outras ocasiões.

Em seu taxi, Travis recebe variados e ilustres clientes: uma prostituta carente na companhia de um velho hipertenso, um candidato à presidência dos EUA, um caixeiro-viajante, um marido recém traído pela esposa, etc. Daí vemos como um taxista pode lidar com a diversidade de ângulos e perspectivas, e como se pode aprender. Scorsese quer mostrar exatamente isso: como é possível aprender quando se está disposto a ir além de onde se espera ir, física ou emocionalmente.

Em Taxi Driver, também há machismo. No meio do filme, Travis visita Betsy em seu posto de trabalho com a intenção de convidá-la para sair. A moça acaba aceitando a proposta, e os dois podem tomar café em uma lanchonete no centro da cidade. Em seguida, Travis leva Betsy a um cinema pornô, mas a moça acaba se sentindo invadida e constrangida, e então vem a ironia: ela chama um taxi para ir embora. Persistente, Travis a chama novamente para sair, sugerindo almoços, jantares e enviando flores para agracia-la. Mas não adianta. Os almoços e jantares já causavam náuseas na pobre moça. As flores, elas fediam e provocavam dores de cabeça em Travis, que amaldiçoou a mulher por sua própria falta de compreensão.

Quando Travis vai ao local de trabalho de Betsy uma última vez na esperança de reavê-la, a moça é amarga à sua presença e age com extrema indiferença. Os dois não se perpetuam de jeito nenhum. Dos fracassos amorosos recorrentes, notamos em Travis uma falta de sensibilidade e dificuldade em lidar (e realmente entender) as mulheres. O tratamento reativo de Betsy fomenta em Travis a constatação de que as pessoas vivem frias e distantes na cidade grande, principalmente as mulheres. Porém, tal constatação foi apenas uma consequência de sua incapacidade de lidar com elas.

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Em Taxi Driver, Scorsese suscita também algumas reflexões sobre a relação entre homem e trabalho. De acordo com ele, um homem pega um emprego e esse emprego se torna o que ele é. Um homem consegue tal emprego que o define. Uma grande limitação. Entretanto, nós sempre temos escolha. Todos nós estamos fadados à fatalidade. Isso deveria nos levar a fazer as coisas que realmente queremos fazer nessa vida, pois se fizermos apenas aquilo que somos obrigados ou contrariados a fazer, estaremos aceitando a impossibilidade de sermos quem de fato gostaríamos.

Scorsese nos ensina que só é saudável quem se sente saudável, e chega uma hora em que Travis não se sente mais assim. Seu único propósito torna-se em assassinar alguém que para ele representa o ideal daquela vida urbana que tanto odeia. Igual a um psicopata, Travis acredita que suas ações (como libertar prostitutas e assassinar o presidente) são importantes e farão um razoável bem à sociedade, mas na verdade, tudo que ele precisava era forjar justificativas para matar. Travis é alguém que vive em sua própria cabeça e o filme nos mostra isso com muita clareza.

De maneira sutil, Taxi Driver também critica questões como, por exemplo, a suscetibilidade corporativa em prol de campanhas políticas, o excesso de minúcia e perfeccionismo que conduz peças publicitárias, a falsa sensação de liberdade em casamentos, a corrupção na indústria farmacêutica, o sensacionalismo e apelo jornalísticos e a importância da organização pessoal e gerenciamento do tempo, entre vários outros bons apontamentos.

Neste filme não existe um “gran finale”, algo que eu realmente admiro nas produções cinematográficas, pois assim é possível fugir da previsibilidade e do tédio. O final de Taxi Driver é inconclusivo, abrindo margem para diversas interpretações.

Enfim. Vemos que todas as pessoas em potencial abrigam sentimentos de mágoa e revolta contra o mundo exterior, e a persona de Travis não deixa de ser útil para provar que essa inconformidade social nunca morrerá.

Taxi Driver é híbrido: filme de guerra, drama político, thriller psicopata, estudo psicológico e também um belo romance sobre a vida urbana.

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