A CAPACIDADE DE FICAR SÓ

A CAPACIDADE DE FICAR SÓ

Por capacidade de ficar só, não estou me referindo à situação objetiva de ser privado de companhia externa. O homem precisa do outro para se reconhecer na sua humanidade.
Refiro-me sim ao sentimento de solidão interior – o sentimento de estar sozinho independentemente das circunstâncias externas. A capacidade de ficar só é um dos sinais mais importantes do amadurecimento emocional.

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“Amar será dar de presente um ao outro a própria solidão. Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.” Clarice Lispector

Hanna Arendt escreveu no seu famoso livro “A Condição Humana”: “Estar em solidão significa estar consigo mesmo e portanto o ato de pensar, embora a mais solitária das atividades, nunca é realizada inteiramente sem companhia”.

Surge no desenvolvimento do ser humano como o medo de ficar só,medo do abandono, depois como desejo de ficar só para finalmente se tornar na capacidade criativa de ficar só.

A solidão é inerente à condição humana, não surgida na contemporaneidade, mas reforçada por ela. Vivemos numa sociedade aonde as relações são cada vez mais frouxas. Mundo virtual separando cada vez mais as pessoas do mundo real. Hoje o virtual é que se tornou “realidade”… Entendendo então a solidão como a questão que marca o sujeito contemporâneo, pretendo investigar as diferentes formas como a solidão se expressa, bem como os principais sentimentos que suscita. De que forma o homem sem vínculos – figura central dos tempos modernos – se conecta? E quais esforços faz para alcançar a felicidade e afastar o sofrimento?

Penso no sentimento de solidão então de duas maneiras – uma positiva, que indica crescimento e outra negativa, causada pelas vicissitudes da vida, pelos lutos mal elaborados, ou pelas perdas precoces, que deixam o ego fragilizado, incapaz de dar conta da sua própria dor, causando por vezes depressão severa que resulta no isolamento do mundo externo.

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Na clínica do psicanalista contemporâneo ela se apresenta como várias formas de comportamento: busca incessante de parcerias, vínculos líquidos, descomprometimento, compulsividades e os sintomas: depressão, melancolia, caracterizando a Clínica do Vazio, referentes à falta, ao abandono, a um mundo interno carente de objetos.

A expressão “buracos negros” – verdadeiras falhas no psiquismo infantil, ligadas ao estágio pré-verbal, foi cunhada por Tustin, autora que estudou em profundidade a questão do autismo. Tais estágios também são encontrados em adultos, principalmente nas patologias mais regressivas, como nas drogadições ou borderlines. A formação de tais “buracos” pode ser justificada pelas falhas na maternagem vindo a gerar sentimento de vazio.

Reafirma-se mais uma vez a importância da boa relação estabelecida pela dupla mãe-bebê. Autores psicanalíticos recentes, como Bion e Winnicott, iluminaram a importância do vínculo materno. A solidão foi associada à ausência de olhar (materno), uma carência de cuidados primários (depressão, abandono) criando sentimentos de vazio, e de desamparo.

Necessita-se tanto de amor como da aprovação e do reconhecimento. O primeiro permite a construção de vínculos com os outros e o segundo permite a construção da autoestima, o vínculo consigo mesmo. Tanto um como o outro sofre um processo de maturação e desenvolvimento especialmente durante a infância, época da vida em que se está mais indefeso, menos capacitado física e emocionalmente para enfrentar as falhas, os equívocos, ausências ou abandono dos pais.

A capacidade de ficar só ou é um fenômeno altamente sofisticado ao qual uma pessoa pode chegar em seu desenvolvimento pessoal depois do estabelecimento de relações edípicas ou então é um fenômeno do início da vida, merece estudo porque é a base sobre a qual a solidão sofisticada se constrói, segundo Winnicott.

O paradoxo, para esse autor, é a capacidade de ficar só, como lactente ou criança pequena, na presença da mãe. Assim, a base da capacidade de ficar só é um paradoxo – é a capacidade de ficar só quando mais alguém está presente. É a solidão compartilhada. A base da confiança. Confiança no presente e futuro, graças à maternagem suficientemente boa. O sujeito terá a oportunidade de construir uma crença num ambiente benigno. Essa crença se constrói através da repetição de gratificações instintivas satisfatórias.

O pensar humano surge como consequência do trabalho mental da função materna, diante da impotência e fragilidade do bebê, que precisa do outro. Quando esse outro falha, no segundo tempo surge o sentimento de desvalimento.

E como a questão dos vínculos rápidos, o papel da Internet, do Facebook, como todas essas transformações atingiram o ser humano dependente?

Questões por demais complexas que terão sua continuidade em outra reflexão.

 

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