KANDISNKY E VOLPI: DO FIGURATIVO AO ABSTRATO

KANDISNKY E VOLPI: DO FIGURATIVO AO ABSTRATO

O caminho real que nos cerca, do conhecido, para o universo inatingível, intocável, apenas criado pela mente. A incrível viagem do figurativo ao abstrato através de Kandinsky e Volpi.

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É natural que nos expressemos através daquilo que conhecemos. Nossas impressões sobre o mundo – que chegam a nós através de nossos sentidos – constituem aquilo que usaremos como base para nossas expressões. Nas artes visuais, por exemplo, podemos observar obras que buscam a imitação daquilo que vemos. Obras estas como as de Michelangelo, ainda que idealizadas, ou de Edgar Degas, com temáticas mais próximas da realidade.

Além daquilo que enxergamos e utilizamos para nossas expressões, há ainda um outro plano de expressão: o abstrato. Nota-se que, além da técnica, existe outra grande dificuldade a ser ultrapassada na criação de uma obra abstrata: o desvinculamento do figurativo, passando daquilo que chamamos de real para algo que não existe no nosso mundo, o irreal.

Muitos artistas de tradição figurativa chegaram a se desvincular parcialmente do real. Artistas como Picasso, que apesar de nunca ter se desvinculado totalmente do figurativo, chegou a fragmentar o figurativo em formas geométricas dando origem ao cubismo. Apesar de suas obras cubistas não representarem a realidade de fato, ainda assim é possível identificar um vínculo muito forte com aquilo que vemos no mundo real. Picasso chegou próximo à abstração, mas não ultrapassou os limites do figurativo.

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Outros artistas ultrapassaram a linha que divide o figurativo do abstrato e gozaram de criações que fogem completamente da realidade. Artista como Volpi e Kandinsky. No entanto, Volpi e Kandinsky tiveram de traçar um longo caminho antes de chegar à abstração total de suas obras. Ambos começaram com obras figurativas e, aos poucos caminharam para a abstração.

Observando a evolução desses dois artistas podemos entender no que implica a abstração. Muito além do que o simples conhecimento das formas e técnicas para executá-las, a abstração é um trabalho de auto-conhecimento, ou seja, entender aquilo que está dentro de nós. Para artistas como Volpi e Kandisnky existem dois mundos: aquele que os cerca e aquele que está em suas mentes.

Observamos, por exemplo nos quadros de Volpi, a fragmentação de casas, ruas, janelas e telhados em formas geométricas chapadas na tela. Temos então a perda da perspectiva. Este evento nos mostra uma maior intimidade do artista com a abstração. Se antes tínhamos casas e ruas representadas de maneira mais fiel, agora temos uma maior ênfase nas formas geométricas que constituem os objetos “casa” e “janela” por exemplo.

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Este caminho de Volpi, que nos leva à abstração, continua até termos somente formas geométricas representadas em suas telas. Formas geométricas como as famosas “bandeirinhas” típicas de festas juninas. Apesar da identificação imediata com este símbolo, o próprio artista explica que o que está representado na tela é um “retângulo sem um triângulo”. Muitas séries desse tema são representadas em outras telas entre outras formas geométricas.

Volpi não pára por aí. Sua tragetória foi marcada também pelo refinamento da própria abstração. A descoberta de sua fase concreta e a maturação das “bandeirinhas” constituiram importantes passos dentro de seu mundo irreal. Em suas últimas obras Volpi demonstra o resultado refinado de sua principal contribuição para a arte brasileira. Já não se faziam necessárias tantas “bandeirinhas” ou mastros. A grandeza de sua obra é representada pela simplicidade de uma ou outra “bandeirinha” acompanhada de um ou outro mastro.

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Em Kandisnky observamos também a fragmentação progressiva de suas obras figurativas. No entanto Kandinsky encontra outros caminhos. Pode-se notar suas obras figurativas se transformando em borrões de tinta, fase que constitui uma transição entre o figurativo e o abstrato mais consciente. A grande marca desta transição está na diversidade de cores. Esta marca irá se estender por outras fases.

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Aos poucos os borrões se tornaram linhas definidas e ,aos poucos, estas linhas se transformaram em formas geométricas. Nota-se, no decorrer de sua evolução, a “chave” do que está por vir. Entre linhas e formas geométricas definidas, Kandinsky nos dá dicas de sua última fase como artista: a fase orgânica. Mais uma vez vemos a progressão e evolução de um artista dentro da própria abstração. Em sua última fase as formas geométricas são deixadas de lado e dá-se lugar à “criaturas” orgânicas e irreais. Este foi o caminho encontrado por Kandisnky.

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É válido lembrar que estes caminhos encontrados não são únicos. Muitos outros artistas encontraram outros caminhos para a abstração e inclusive foram mais longe chegando a abandonar completamente as formas, como é o caso de Arcângelo Ianelli.

Se observarmos e analisarmos as obras e as fases destes artistas, veremos o quão concisas são as soluções encontradas por ambos, Volpi e Kandinsky. Através de caminhos diferentes ambos tiveram uma profunda experiência com um mundo que só existe na mente humana e é único para cada indivíduo. Nota-se que a abstração não é um simples delírio sem base alguma. Pode-se dizer que a abstração é um caminho intencional que só existe graças ao seu oposto, o figurativo.

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