LEONARD COHEN – I’M YOUR MAN

LEONARD COHEN – I’M YOUR MAN

O disco que revitalizou a carreira de Leonard Cohen.

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“They sentenced me to Twenty years of boredom/ For trying to change the system from within/I’m comin’ now, I’m coming to reward then”, dizia Cohen nos dois primeiros versos de “First We Take Manhattan” e do disco “I’m Your Man”, uma alfinetada nos executivos de sua gravadora que, três anos antes, recusaram-se a lançar seu disco “Various Positions” nos Estados Unidos, terreno no qual Cohen há muito buscava entrar (ironicamente – ou não – “Various Positions” contém aquele que é considerado até hoje o maior hit de Cohen, o hino “Hallellujah”). Se essas primeiras palavras soavam surpreendentes, mais ainda era a passagem instrumental que as antecedia. “First We Take Manhattan” começa em uma levada próxima à Eurodance dominada pelo som do sintetizador. Essa seria uma das principais características do disco.

Pensando bem, pouco haveria de surpreendente no disco para o que a foto de capa não houvesse preparado o ouvinte. A imagem que apresenta “I’m Your Man” é uma fotografia tirada pela fotógrafa Sharon Weisz que mostra Leonard, expressão séria, os cabelos penteados para trás, portando óculos escuros e um paletó sobre camiseta branca. Nada de extraordinário, levando em conta as outras capas de Cohen, não estivesse o cantor comendo uma banana.

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Em 1988, Cohen passava por uma fase confusa em sua carreira. Enquanto seu disco anterior houvera sido renegado em território norte-americano, o mesmo fora sucesso tanto no Canadá quanto na Europa. Porém, foi através de uma voz que não a sua que a música de Cohen conseguiu atingir o gosto do público norte-americano, quando, um ano antes do lançamento de “I’m Your Man”, a cantora Jennifer Warnes lançara “Famous Blue Raincoat”, composto apenas por canções escritas por Cohen. O disco foi um sucesso de vendas nos Estados Unidos, conquistando um êxito de vendas que previamente o próprio Cohen nunca fora capaz de atingir em sua carreira.

No embalo de “Famous Blue Raincoat”, que inclusive contém canções até então inéditas de Cohen que viriam a figurar em “I’m Your Man”, o cantor passou a compor as canções que formariam o album. A diferença é que ele não mais compunha usando o violão, mas sim um sintetizador Casio bastante básico. Além disso, a própria voz de Cohen parecia haver “amadurecido”, ganhando um tom mais grave e até cavernoso. O músico assumia de vez uma postura de crooner que era evidente na própria cadência das canções. Era evidente, porém, o contraste entre essa nova postura musical de Cohen com a roupagem que ele deu às composições. Faixas permeadas de sofisticação – que normalmente ganhariam uma roupagem semi-acústica mais próxima do Jazz – eram acompanhadas por exageros tecnológicos (da época) e maneirismos do Synth-Pop.

Em relação às letras, Cohen estava afiadíssimo. Sua poesia na qual símbolos religiosos e metáforas de dureza política serviam como formas de descrever situações amorosas – ou vice-versa, enche o disco de drama e excitação. Como na já citada “First We Take Manhattan”, na qual sua relação conturbada com a gravadora Columbia é apresentada através de retratos do terrorismo com cara rockstar do R.A.F. (Rote Armee Fraktion), o verso “Ah you loved me as a looser, but now you’re worried that I just my win” serve tanto como uma mensagem para aqueles que admiravam o Radical Chic do grupo extremista alemão, mas que não queriam vê-los triunfantes de fato quanto para os que cultuavam Cohen como “adorável perdedor”, mas que agora teriam de lidar com uma faceta próxima do pop. O refrão cantado pelas backing-vocals femininas do cantor é o golpe final no ouvinte angustiado que espera ter o bardo depressivo de volta. Amor e culpa são abordados em “Ain’t No Cure For Love”. Uma canção de paixão desesperada que Cohen teria escrito como uma reflexão sobre a AIDS, que encontrava-se em seu auge epidêmico na época. “There ain’t no drink, no drug” capaz de curar o amor. Já “Everybody Knows” é um retrato pessimista do final da década de 80 que consiste em uma série de imagens que invocam aquilo que “todo mundo sabe”, mas tem medo de encarar (que a guerra acabou e o bem perdeu, que o capitão mentiu, que “você me ama”). A canção é semelhante em conteúdo e estrutura a “Everything is Broken” que viria a ser gravada um ano depois em “Oh Mercy”, disco que, da mesma forma como “I’m Your Man” fez com a carreira de Cohen, revitalizou a de Bob Dylan.

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A canção que dá nome ao disco é uma típica composição de amor “cohenesca”. Uma coleção de imagens sexuais nem sempre tão sutis (…if you want a doctor/i’ll examine every inch of you/ and if you want a driver, climb inside/or if you wanna take me for a ride…) que sugerem a confiança de Cohen como amante, seja por toda vida, seja por apenas uma noite. A próxima canção do disco é uma homenagem ao grande ídolo de Cohen, àquele que teria inspirado o cantor canadense a encontrar sua real indentidade quando esse ainda era um poeta adolescente: o poeta espanhol Federico Garcia Lorca – Cohen de fato chegou a batizar sua filha com o sobrenome do autor, Lorca. “Take This Waltz” é uma tradução livre de um poema escrito por Lorca para o livro “Poeta em Nova Iorque” chamado “Pequeño Vals Viénes”. Uma valsa de maneirismos hispânicos acompanhada pelo sintetizador de Cohen.

Jazz Police, a canção mais descaradamente Synth-Pop do disco, é justamente uma provocação cínica e debochada aos puristas. Já “Can’t Forget” trata de nostalgia e de não se reconhecer em lembranças de sua própria conduta.

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O disco é encerrado por “Tower Of Song”, canção em Cohen encara a velhice e estuda seu papel na história da música através da imagem de uma “torre da canção” na qual, centenas andares acima dele, encontra-se Hank Williams (a quem ele pergunta “o quão solitário pode ser isso?”, sem receber uma resposta). Cohen segue refletindo sobre o que o leva a compor uma canção – mulheres, a dor, misticismo e contexto social – para, ao final, repetir a primeira estrofe – não importa o quanto se reflita sobre a vida e a carreira o aqui e o agora continuarão sendo a verdade escancarada.

“I’m Your Man” tirou Cohen do Hall de astros cult que não obtiveram sucesso comercial. O disco fez com que não só os europeus e canadenses, mas também os até então inatingíveis norte-americanos se rendessem de vez ao canadense. Hoje o músico é atração em grandes festivais e seus concertos são eventos de grande porte. Sua timidez inicial foi superada por uma confiança divertida de quem finalmente sabe que é bom no que faz. Se “I’m Your Man”, hoje, esta longe de ser o disco mais lembrado de sua carreira, é a ele que Cohen deve o fato de ela ainda existir.

 

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