AQUELE RABUGENTO TINHA MUITO A DIZER

AQUELE RABUGENTO TINHA MUITO A DIZER

Não é a toa que esse rabugento, de camiseta velha e calça jeans surrada, com a cara de poucos amigos, sempre nervoso com qualquer brincadeira da criançada naquela vila, é nosso personagem favorito dentre todos aqueles da vila. Nunca nos sentimos tão identificados com alguém que, por mais dificuldades que passava, conseguia arrancar um sorriso do rosto e expressar sua grandeza, não só pelas palavras, mas por suas ações.

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Ahhh Bolaños, Chespirito, logo você, que de tantos personagens que criou, teve que nos apresentar justamente ele, um dos mais humanos, verídicos e, até certo ponto, o mais brasileiro fora de terras tupiniquins.

E não satisfeito com tudo isso, você ainda me entrega esse papel para um tal de Don Ramón Valdés.

Depois de crescido, e de centenas e centenas de risadas das mesmas piadas que eu praticamente narrava, como se eu tivesse ali do seu lado, acompanhando tudo de perto, com o script na mão, pude entender o que vocês dois nos passaram.

Depois de todos os tabefes, chutes, beliscões, vassouradas, tijoladas, boladas, montinhos. Depois de várias tortas, bolos, refrescos, sanduíches de presunto e leite de burra. Logo após as aulas, os pátios, os festivais da boa vizinhança, de Acapulco.

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Depois de tudo isso, logo crescido, mas sabendo que ainda traria a juventude comigo, mesmo tendo todos os anos, assim como o Dr. Chapatin, pude entender o tamanho daqueles personagens, que me acompanharam durante décadas (comigo, pelo menos, são duas!).

E dentre eles, talvez, se não o maior de todos, o mais nobre. Aquele magricelo, de camiseta preta, jeans, tênis e chapéu. Da tatuagem no braço e que vira e mexe era visto com seu cigarro na mão; O tripa seca que, do jeito que dava, fazia de tudo para criar sua única filha.

E como ele amava aquela garota.

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Por ela, ele foi: pugilista, marceneiro, sapateiro, cabeleireiro, barbeiro, vendedor de utensílios domésticos, empresário, fotógrafo, mecânico, eletricista, leiteiro, jardineiro, vendedor de churros, vendedor de balões, dramaturgo e regente do Coral de crianças do Festival da Boa Vizinhança, advogado, toureiro, professor, técnico de futebol americano, jogador de boliche.

Mesmo com todos esses empregos, com a certeza de que não existe trabalho ruim, o ruim é ter que trabalhar, de moeda em moeda ele pagava tudo do jeito que dava. Quer dizer, tudo menos seus aluguéis. Os eternos catorze meses que ele fazia se estender, nem que para isso tivesse que fugir, correr, pular a janela de casa ou combinar com crianças avisos envolvendo idas e vindas de discos voadores.

Distribuía tapas, socos e beliscões, mas nunca levantou a mão para uma mulher sequer, nem mesmo aquela que parecia que tinha hora marcada entre a palma da mão dela e seu rosto.

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Era o rabugento, o folgado, o vagabundo, o que não queria nada com a vida. Ao menos é o que buscava aparentar, ou talvez fosse assim mesmo. Mas esse mesmo vagabundo assumia a responsabilidade de um garoto de dez anos, que, com fome, comeu todos os churros da venda.

E é dele, do mais inesperado personagem, os dizeres “As pessoas boas devem amar seus inimigos” e “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”.

Dom Ramón, Dom Ramón. Como pôde dar vida para algo escrito num papel?

Deixo com vocês minha lembrança dessa dupla.

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Se não me engano, era aniversário do Quico e o mesmo, no auge da bondade e educação recebida de sua mãe, convida o Chaves para a festa, afinal de contas, quem é que invejaria seus presentes se ele não estivesse por lá?

Durante todo aquele festival de comes e bebes, misturado com aquela bagunça que somente crianças podem nos proporcionar, o pequeno morador do barril “tomava para si” os sanduíches que eram trazidos pela Dona Florinda. E não só isso. Ele pegou, na mão grande, o bolo da festa.

Inconformado com o roubo do Chaves e com a soberba que vinha de família, Quico pedia ao soprar as velas que tivesse tudo para ele. Seja os presentes, sucos, sanduíches e bolos. É quando sua mãe intervém e diz que se faz importante partilhar, mesmo praticando isso com a gentalha.

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Então, no final do dia, com a lua iluminando a escada, encontramos a verdadeira razão para que o Chaves tenha pegado, com afinco, todos os comes e bebes da singela festa de aniversário.

Lá estava partilhando tudo com o seu melhor amigo, aquele mesmo que, pobre como ele, ainda o convidara para o desjejum. E que não foi de mãos vazias, trazia consigo um copo de refresco.

E a câmera se afasta, com toda a vila em segundo plano, importando-se apenas em iluminar aqueles que, com pouco, ainda sim partilham, pois já dizia a frase que a verdadeira felicidade é aquela que é compartilhada.

Como sinto orgulho daqueles efeitos especiais de cadeira de isopor. Porque daí está o segredo: eles nos ganham pela simplicidade e sinceridade nos atos, sem chroma key e efeitos especiais. Roberto Bolaños e Ramón Valdes, vocês não poderiam estar mais certos.

 

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