ENSAIO SOBRE O DESAPEGO

ENSAIO SOBRE O DESAPEGO

O desapego ganha papel de vilão quando não o tem. Desapego não é desdém, muito pelo contrário ele pode ser uma baita prova de amor, afinal deixar ir não é para todos. Já diz a linda canção:

Qualquer coisa que faça eu pensar que você está bem,
Ou deitada nos braços de um outro qualquer
Que é melhor do que sofrer
De saudade de mim como eu to de você
Pode crer,
Que essa dor eu não quero pra ninguém no mundo,
Imagina só, pra você.
(Pra você dar o nome – Tó Brandileone)

DSC_2565.JPGFoto: da autora

Ir. Vir. Parar. Começar. Ciclos vêm e vão e esse é o desafio. Deixar ir, deixar vir. Permitir. Desapegar-se do que é nosso e do que já não é mais. O tempo vem e vai. Ele muda, nós mudamos, nosso ser é de eterna construção. Amores, amigos, colegas de trabalho. Uns ficam, outros não se encaixam mais no nosso mundo e nós também partimos. E isso não torna menos especial ou mais rancorosa a memória que cada ida e vinda deixa em nossa história. Não desqualifica os amores que passaram, os caminhos que já não tinham motivos pra se cruzar, o adeus que existiu sem ter cara de despedida.

Amor tem como sinônimo a liberdade. Toda escolha livre é mais gratificante. Todo amor que nasce da vontade de apenas ser amor sem amarras, sem cobranças. Amar em liberdade é escolher permanecer por si só. É aceitar que hoje pode não se tornar amanhã. É aceitar que o direito do outro é mesmo que o nosso: ir e vir. É uma escolha feita a cada dia e quanto mais livre essa vivência, mais verdadeira. Desapego não é deixar de cuidar. Desapegar-se é não viver o que se quer, é não esperar do outro lado um milagre que não construímos do lado de cá, é saber que a qualquer hora podemos voar e ser apenas uma boa memória na vida de quem cruzamos.

Tudo nessa vida flui quando permitimos. Uma dor passa, um amor se renova, uma amizade segue caminhos distantes, um emprego tem dias contatos e outras experiências surgem. Criamos uma expectativa (e necessidade) de sermos úteis a todo o momento, quando é justamente em nossa inutilidade que ganhamos valor: tocamos outras almas pelo que somos e não pelo que fazemos. E tanto na utilidade quando na inutilidade muitos passarão, pelos simples fator de terem cumprido suas missões e nós também. O sofrimento reside no julgamento que permeia nossa mente e precisa justificar mudanças de caminho. Sofremos quando não aceitamos o outro em sua totalidade. Sofremos quando não amamos o outro em sua total liberdade e sim desejando que ele cumpra o que esperamos dele.

Se você tem mais de uns vinte e tantos anos, certamente tem um número considerável de pessoas que passaram pela sua vida e você jurava que elas jamais partiriam. Todas tinham missões em sua vida. O quanto elas cumpriram? Não se pode saber. E você? Deu seu melhor? Deu aquele amor deslumbrante que você carrega no peito? Sente aquela “missão cumprida” quando lembra o que viveu ao lado daquela pessoa? O caminho é esse, estrada de paz de espírito.

Sim, fica aquela perguntinha entalada na garganta: por que acabou? Era o que tinha de ser. Entre erros e acertos não há culpa ou questionamentos em relação a essas partidas. Nada faltou, mas a eternidade dos amores é baseada na vontade dos amantes (no caso, amante é simplesmente aquele que ama). E deixar ir é um grande ato de amor, aceitar as partidas é deixar que o outro siga seu caminho, sabendo que a felicidade daquele ser sempre será algo que deixará seu coração quentinho, mesmo que seja em outras terras, em outros braços.

Uma das missões mais certas que temos na vida é distribuir amor por onde pisar. Dar, distribuir, compartilhar o que vem lá da nossa essência e sem pedir nadinha em troca. Digo mais, sem QUERER nada em troca. E ainda: sem ESPERAR nada. Difícil? Um pouco já que nossa mente ocidental não é treinada para o tal e perdemos diversas oportunidades de dar amor e viver a grandiosidade que isso proporciona a nossa alma. Dar amor é natural como qualquer instinto de sobrevivência e culturalmente acabemos perdendo muito tempo na mesquinharia de pensar no que se pode receber.

Desapegar é não se ater às pequenices da vida. Não ter posse das pessoas, coisas ou sentimento. É entregar-se e pertencer a tudo. É aceitar que a vida como o mar é inconstante, com dias de boas ondas e outros de ressaca, e que em qualquer situação ele jamais cessa seu eterno vem e vai. É amar em liberdade. É deixar ir. É saber que as histórias não perdem importância por chegar ao fim, eles ficam tranquilas em alguma gaveta da memória sabendo que foram missões cumpridas com louvor.

 

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