O PRIMEIRO LIVRO DE POEMAS DE MACHADO DE ASSIS

O PRIMEIRO LIVRO DE POEMAS DE MACHADO DE ASSIS

A produção poética do maior escritor brasileiro, Machado de Assis, é solenemente ignorada em virtude da genialidade de sua prosa. Mas há de ser revisto tal engano, pois há valor nos versos do grande autor.

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A palavra crisálida provém do grego krusallis e, desde a primeira menção, designava a larva do inseto que, mais tarde, viraria a ser uma bela borboleta. Imbuído de um espírito visionário, o escritor Machado de Assis denominou sua primeira incursão em livro na poesia como algo ainda larval, ainda inaugural ou incipiente. Os versos do Bruxo do Cosme Velho ainda carecem de um olhar mais detido dos estudiosos. O interesse sobremaneira recai sobre a prosa dele. A crítica tradicional trata da prosa machadiana dividindo-a em categorias com certo viés maniqueísta . Dizem que os primeiros romances dele pertencem à fase romântica e dotam tais obras de uma aura até mesmo inocente. Deixam-nas no breu da indiferença, modus operandi dado a tudo que é pueril. A afamada fase realista, “inaugurada” com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), atrai para si os holofotes e as penas dos renomados críticos. A poesia, entretanto, onde fica? Os versos dele dormem ora na letargia da descoberta de novos índices sobre Machado, ora na indiferença ocasionada pela genialidade de sua prosa. Crisálidas, na parca menção que a ele se destina, é um livro entendido como tributário do Romantismo, corrente na qual se insere a produção artística jovem de Machado. Colijo agora um excerto de Alfredo Bosi, ainda que claramente dedicado à prosa machadiana, sobre um aspecto da juventude artística do escritor:

(…) “a maior angústia, oculta ou patente, de certas personagens é determi-nada pelo horizonte de status; horizonte que ora se aproxima, ora se furta à mira do sujeito que vive uma condição fundamental de carência” . O crítico caminha, na prosa, para a configuração de uma máscara de decepção aos personagens machadianos. Salienta que o Bruxo do Cosme Velho opera na percepção aguda de desníveis sociais, distribuindo ora a hipocrisia, ora a falsidade, de acordo com a condição superior ou inferior dos envolvidos nesse jogo de relações. Aí a prosa se desliga da poesia, pois não há, na produção em versos de Machado, o mesmo desmascaramento de facetas da sociedade burguesa brasileira, na ânsia de galgar a modernidade, mas incapaz de alijar-se de índices arcaicos. Entretanto, Roberto Schwarz destaca que Machado, na prosa, vale-se de estruturas formais mais remotas (vide o narrador do romance inglês Tristam Shandy, de Lawrence Sterne, cuja inconfiabilidade patente serviu de molde para a confecção do narrador Brás Cubas) e as aclimatou no solo brasileiro, como tática de desnudamento de uma sociedade absurdamente cifrada em padrões tão díspares e dissonantes entre si.

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E quanto à poesia dele? Notadamente, Machado não se deixou levar pelo caráter lírico e idílico dos versos de um poeta do Mal do Século; não obstante, ele não impessoalizou sua verve poética como alguns críticos (dos famigerados manuais de literatura para ensino médio) tratam de classificá-lo como um parnasiano. O escritor parece equilibrar-se entre dois polos, os quais chamarei de idealista e realista (não no sentido de Realismo, escola literária entendida como retrato do ambiente social vigente). Como um símbolo da visão idealista de poesia, cito o autor da obra-prima Dom Quixote, o espanhol Miguel de Cervantes. Cervantes, por meio da voz de seu insigne personagem, dissera que a poesia era “una alquimia (…) y de tal virtud, que quien la sabe tratar la volverá em oro purísimo” . Já o poeta francês Charles Baudelaire dirime o tom miraculoso, sem, contudo, expurgá-lo de vez. Para ele, a poesia seria o testemunho “de uma natureza exilada no imperfeito e que desejaria empossar-se, imediatamente, aqui mesmo na terra, de um paraíso revelado ”. Como um exemplo de visão realista da poesia, trago à baila o filósofo Arthur Schopenhauer, de quem Machado era leitor assíduo e em cuja obra o nosso escritor buscou princípios norteadores. Schopenhauer convoca a poesia como um dos veículos para a objetivação da Vontade (em maiúscula, é um dos conceitos-chave do alemão, entendida como uma espécie de ânsia por viver, geradora de insatisfação perpétua e, pois, conducente à dor – note-se aí um interstício com o Budismo e a noção de apego como gerador de todo o sofrimento humano; na língua pali, desejo/apego é denominado tanha). Essa Vontade se corporifica em desejos humanos dos mais diversos. O poeta Machado, no primeiro voo nos versos, imiscui-se no caminho trilhado séculos antes por outros vates: ora a decepção, ora o entusiasmo, instâncias que não passam de uma pálida tradução da Vontade. Existem poemas em Crisálidas cuja forma naturalmente se vincula ao chamado ideal clássico, e a parca safra de textos acerca do Machado poético logo trata de colocá-lo em um quadro-estanque classicista (vide alguns manuais de literatura, anteriormente comentados). Ora, o próprio conceito de Classicismo não resiste a uma unidade, como se vê nos excertos do professor português Vitor Aguiar e Silva:

Aulo Gélio entende por escritor clássico aquele que, devido sobretudo à correção da sua linguagem, pode ser tomado como modelo. Tal conceito de clássico e de classicismo formou-se na cultura helenística, quando os eruditos alexandrinos escolheram, dentre os autores gregos antigos, aqueles que deviam ser considerados como modelos, procedendo ao estabelecimento de ‘cânones’. (…) Entende-se muitas vezes por autor clássico aquele que, pela vernaculidade da sua locução, pode ser considerado como um mestre da pureza do idioma e, portanto, como um modelo a seguir pelos que se consagram à arte de escrever. (…) No início do século XIX, com as transformações que ocorrem nas literaturas europeias (…) passou a designar um determinado sistema estético literário, um determinado estilo artístico, sem qualquer conotação valorativa.

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Aguiar e Silva ainda frisa que tal viés de Classicismo é, por vezes, estéril, visto que se alicerça basicamente sobre preceitos de bom uso da língua (vetores gramaticais). Costumeiramente, a literatura grega e a latina são consideradas modelares nesse ínterim, uma vez que se diz detentoras de “equilíbrio e serenidade próprios (…), do repúdio ao sobrenatural, o ritmo puramente terreno, o amor da forma ”. Ainda Aguiar e Silva traz nuances do ser clássico, claramente tributárias do valor primício. Concebe, num matiz mais moderno e mais próximo de nós, o classicismo como “uma constante do espírito humano e, por conseguinte, como uma constante também da literatura – a constante do equilíbrio, da ordem e da harmonia ”. Todavia, ele critica essa acepção do classicismo como reduto inconteste da harmonia. Cita ainda um comentário mordaz do crítico francês Henri Peyre, o qual afirma que “este classicismo já floria no jardim do Éden e na Arca de Noé”. Em miúdos, os princípios de harmonia e de ordem não podem, por si só, caracterizar um espírito classicista, já que estariam presentes em artefatos literários de correntes muitas vezes dissonantes daquilo defendido como clássico. Até mesmo o fantástico ou o arroubo encerram, em muitos casos, ditames de ordem e de simetria.

Novamente, por acomodação intelectual, muitos manuais de literatura contrapõem ao Classicismo o Romantismo, colocando neste um sem-número de ideias cujo nó unificador seria o desapreço às regras de composição poética. O Romantismo, enquanto estética literária, não se encarcera nessa dicotomia redutora. A forma romântica é o resultado de um crescendo de processos liberais da sociedade, cuja maturação foi atingida pela Revolução Francesa, em 1789, e, a partir dela, arregimentou uma série de ideias as quais viriam a culminar definitivamente numa estética imorredoura. Uma maneira de se explicar tal movimento nas artes está num excerto do professor e jornalista italiano Francesco Saverio de Sanctis (1817-1883), fundador da primeira cátedra de literatura comparada do mundo na Universidade de Nápoles. De Sanctis sustenta que “a literatura não podia subtrair-se a esse movimento [pós-1789, desfazendo o caráter aristocrático da monarquia, revestindo-a de modos mais liberais ou derrubando-a]. Filosofia e história se converteram no antecedente da crítica literária. A obra de arte não é mais considerada como o produto arbitrário e subjetivo do engenho na imutabilidade das regras e dos exemplos, mas como produto mais ou menos inconsciente do espírito do mundo num dado momento de sua existência ”. Novamente, põe-se por terra mais um engodo conceitual, de que o Romantismo seria um ponto antípoda ao Classicismo, ou seja, uma maneira desordenada de expressão, a qual viria a infringir a maneira falsamente consensual de ordem dos clássicos.

Ele ainda explicita que o engenho – a arte de se compor – “é a expressão condensada e sublimada das forças coletivas, cujo conjunto constitui a individualidade de uma sociedade ou de um século ”. Isso também dirime a ideia de que o engenho romântico provém de um espírito escolhido por alguma entidade sobrenatural e a pretensa excentricidade dos escritores românticos, supostamente alheios ao meio onde vivem.

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