UMA SOLIDÃO QUE A GENTE TEM EM COMUM

UMA SOLIDÃO QUE A GENTE TEM EM COMUM

Para ser mais feliz, faça as pazes com a solidão.

Dia desses, conheci uma senhora muito querida chamada Dora. A dona Dora é uma senhorinha super ativa, que não conta mais a idade, que é fluente em quatro idiomas e que se recusa a tomar chimarrão sozinha. Ela já foi casada, os filhos foram fazer suas vidas e hoje ela vive sozinha. Ela faz tudo sozinha, exceto tomar chimarrão. Esse era um hábito que ela compartilhava com seu marido e que se tornou um convite para nostalgia e solidão. E foi numa roda de chimarrão que conheci a dona Dora, essa senhorinha que me fez pensar sobre a inevitável solidão que não estamos preparados para abraçar.

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A história da Dora chegou em boa hora, enquanto eu estava lendo o livro no “No Coração da Vida: sabedoria e compaixão para o cotidiano”, escrito pela professora de Drukpa Jetsunma Tenzin Palmo. Um dos ensinamentos do livro casou com a história da Dora e com a solidão da qual ninguém está livre: o desconforto num geral, sobretudo, quando estamos sozinhos. E ninguém melhor para falar sobre solidão do que a professora Jetsunma. A mestre, que viveu em reclusão numa caverna nos Himalaias durante 12 anos, relata que muitas pessoas entenderam a sua escolha como uma tentativa de fuga, mas do alto da sua experiência ela afirma que não tinha como fugir. Afinal, ela estava completamente sozinha e, em todos esses anos ela foi a sua única companhia, tendo que observar seus próprios pensamentos e mergulhar a fundo no seu mundo interno. Sem distrações, sem internet, sem pessoas e sem fuga. Eu sei que fechar a nossa agenda por 12 anos pode soar ousado, mas talvez desapegar de alguns compromissos e realocar esse tempo para cultivar o hábito de estar sozinho já seja um bom começo.

Claro, somos seres sociáveis e precisamos do coletivo para o nosso desenvolvimento. Vamos em busca de pessoas, criamos relações e expandimos o nosso círculo social sempre que possível. Porém, na ânsia de atender a demanda de sermos produtivos, nos esvaziamos por inteiros e nos preenchemos com compromissos e encontros que muitas vezes são desnecessários. Saímos desesperados para aproveitar o mundo lá fora, a companhia dos outros e deixamos de cultivar o mundo interno e de apreciar a boa companhia que podemos ser. Nos deixamos levar pela multidão e descartamos a solidão, como se ela fosse algo perigoso, um terreno onde não podemos pisar e aquela que não podemos citar o nome. Como se solidão fosse sinônimo de fracasso e como se a nossa companhia servisse a todos, menos a nós.

obivous_ameliamedisse_obvious.png image from http://www.instagram.com/aykutmaykut/

Eu tenho muito prazer em compartilhar a minha vida e eu não tenho o objetivo de me isolar em um montanha, na minha casa ou numa cabana no campo — pelo menos não por enquanto. Eu sempre fui muito sociável, eu amo muito os meus amigos e não passo uma dia ser falar com a minha família. Só que a minha experiência de vida, a dona Dora e alguns livros, me fizeram perceber que a solidão faz tão bem quanto a presença. Que a solidão faz a gente não só encarar quem realmente é, mas faz a gente se conhecer e viver experiências internas profundas que levamos para a vida.

Naquela roda de chimarrão, ouvimos atentamente a história da dona Dora. Ela dizia o quanto adorava compartilhar momentos na companhia da família e dos amigos mais próximos, só que como o ciclo natural da vida, as pessoas foram indo embora e, entre uma visita e outra, ela se via sozinha. E a vida é assim pra todos: apesar das nossas relações e do nosso desconforto, nós viajamos sozinhos. E talvez é esse medo da solidão que faz a gente correr para todos os lados e achar que qualquer companhia ou compromisso serve. Talvez para encarar a solidão a gente precisa, antes de tudo, aceitá-la.

Eu desejo que a gente compartilhe muitos momentos legais com as pessoas queridas mas que, principalmente, a gente faça as pazes com a solidão e que a gente também possa ser feliz sozinho. Até o dia em que a dona Dora que vive dentro da gente possa curtir com plenitude cada momento sozinha, até mesmo um chimarrão.

 

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