É POSSÍVEL FAZER DIFERENTE?

É POSSÍVEL FAZER DIFERENTE?

No filme “Feitiço do Tempo”, um homem fica preso em um dia que se repete eternamente. Às vezes somos um pouco como ele, aprisionados em comportamentos e padrões que repetimos dia após dia.

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Phil Connors (interpretado por Bill Murray) é um ranzinza e egocêntrico repórter de meteorologia, escalado, a contragosto, para cobrir o Festival da Marmota, na pitoresca cidade de Punxsutawney. A marmota, que, como ele, se chama Phil, também faz previsões do tempo. Especificamente, ela prevê, no dia 2 de fevereiro de cada ano, se a primavera do hemisfério norte chegará seis semanas mais cedo, amenizando o clima gélido do inverno da Pennsylvania. Ao acordar, se ela não vir a própria sombra, a chegada da primavera se antecipará; se ela vir a própria sombra, a estação seguirá o seu curso e o inverno durará mas seis semanas.

Connors considera esse festival uma grande tolice e se irrita com o fato de sempre ter que cobri-lo – em sua mente, entrevistar uma marmota é uma tarefa que não está à sua altura. Quando, finalmente, atravessa o martírio da reportagem, quer sair imediatamente da pequena cidade, que considera povoada por caipiras, sem atrativo algum. Mas uma nevasca, que não fazia parte de suas previsões no último telejornal, fecha a estrada. A equipe é obrigada a voltar e pernoitar ali novamente.

No dia seguinte, Phil acorda no mesmo horário e ouve os locutores do rádio, que usa como despertador, repetirem palavras exatamente iguais às do dia anterior. Todos agem como se nada de diferente estivesse se passando, dizem as mesmas frases, fazem os mesmos gestos, aparecem nas mesmas circunstâncias de um dia atrás – e a marmota faz a mesma previsão. É como se ontem não houvesse existido, tudo estivesse começando da estaca zero e apenas o repórter tivesse consciência disso. O fenômeno se repete no próximo dia e continua se repetindo indefinidamente.

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Esse é o argumento de Feitiço do Tempo (‘Groundhog Day’, 1993), comédia clássica dos anos 90.

A narrativa fantasiosa do filme é intrigante e leva a uma interrogação: poderia ela se aplicar às nossas vidas comuns, em que eventos mágicos como esse não acontecem? O que é que tendemos a vivenciar, repetidamente, todos os dias de nossas vidas? Temos vários hábitos e automatismos que fazem parte da experiência de ser humano. Até certo ponto, isso é saudável e natural. Mas quando é que o hábito se torna uma rotina prejudicial? Qual é a linha demarcatória entre o caráter cíclico da vida e a reprodução de padrões que levam à estagnação, quando não a algum tipo de dor que teima em permanecer, infiltrando-se em nossas ações e vivências, ocultamente nos sabotando?

A partir deste ponto, haverá spoilers

Em primeiro lugar, é preciso dizer que este é um filme essencialmente leve, engraçado e divertido. Mas, subjacente a essa leveza, ele versa sobre questões densas e relevantes para o ser humano. Este artigo abordará esse lado mais profundo, sem esquecer que tais questões podem ser apresentadas de formas sutis.

Phil Connors é uma pessoa aprisionada em seu egoísmo, sua vaidade, sua irritabilidade, sua má vontade, sua insatisfação generalizada com a vida que leva. Culpa os outros por suas próprias deficiências, enxergando-se como vítima e como injustiçado.

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Como na previsão da marmota, que vê a própria sombra, sua vida é um inverno cuja primavera é deixada sempre para depois. E, como o singelo animal, Phil verá a própria sombra, em seu inverno particular de infindas repetições.

Ao acordar, pela primeira vez, no mesmo dia que havia vivido ontem, Phil se mostra confuso e relutante em aceitar a realidade da experiência. Quando percebe que, de fato, está vivendo um pesadelo em estado de vigília e aceita que não há o que fazer, Phil pergunta a recém-conhecidos o que eles fariam se não houvesse amanhã. Um deles responde: “não haveria consequências, não haveria ressacas, poderíamos fazer o que quiséssemos”.

Phil passa, então, a fazer tudo o que quer, sem pensar em qualquer consequência. Isso inclui empanturrar-se de doces, dirigir em linhas de trem, roubar e enganar mulheres para seduzi-las. Porém, quando tenta fazer isso com Rita, a produtora da reportagem (interpretada por Andie MacDowell), irá chocar-se contra um muro aparentemente intransponível.

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Phil inicia sua busca por uma noite com Rita demonstrando interesse na vida dela. Pergunta sobre o que ela gosta, o que pensa, o que quer da vida. E, especialmente, qual é o seu homem ideal. Ele tentará representar o papel desse ideal.

Passa vários dias conhecendo detalhes de sua vida e agindo cada vez mais de acordo com o que ela admira em um homem. Quando finalmente a conquista, porém, ela reluta em ceder à sua insistência para fazer sexo naquela noite, o que seria rápido demais para ela. Para tentar burlar a resistência, ele diz que a ama. Ela percebe, então, que ele armou tudo o que aconteceu no dia. Phil faz várias novas tentativas, inutilmente.

Não se trata aqui de uma ode ao puritanismo. Rita aparece como um símbolo do limite de sua capacidade de enganar. Um símbolo daquilo que a mentira não pode corromper. Com seu caráter firme e honesto, ela mostra a Phil que, com sua presunção, ele engana, mais do que qualquer um, a si mesmo.

Rita permite Phil ver a própria sombra. Tudo que ele fez até aí, em todas as repetições e mesmo antes, foi visando o seu próprio e exclusivo prazer. Ele poderia continuar nesse rumo. Mas não há mais sabor em viver sozinho, sem compartilhar coisas verdadeiras, sinceras, profundas.

É então que Phil resolve pôr um fim a si mesmo. Este é um momento significativo, no qual, em meio à dor, ele dá o sinal de que não aguenta mais ficar preso em seu “eu” isolado. Que fique claro que estas palavras não são uma apologia ao suicídio, mas sim uma sugestão de que a vontade de morrer é sintoma de outra coisa, de algo que precisa ser mudado interiormente. E que, no caso de Phil, o que ele precisa é diminuir o tamanho que tem aos seus olhos e se desvencilhar da sombra gigantesca que sua própria imagem lança sobre si.

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Phil faz uma série de tentativas, se matando de várias maneiras, mas continua acordando novamente, ainda no dia da marmota. Mas, quando se conforma com o fato de que não vai escapar de nada através do suicídio, demonstra uma mudança em seu comportamento: ele diz a verdade a Rita. Provavelmente, a primeira verdade que disse há muito tempo, inclusive para si.

A maneira que Phil usa para provar a ela o que está acontecendo deixa claro que algo já vinha se operando. Ele dá informações detalhadas sobre pessoas que frequentam a lanchonete em que ambos estão. O egocêntrico repórter já vinha olhando para fora, se interessando pelos outros, sabendo de suas vidas e histórias. A produtora é convencida quando pede para ele falar dela e ele acerta vários detalhes que ela provavelmente não compartilha com muitas pessoas.

Ela resolve passar o dia com ele, que, desta vez, não tem motivos ocultos. Os dois conversam, se divertem, e, ao fim, enquanto Rita está dormindo, Phil declara seus verdadeiros sentimentos por ela. Acima de tudo, ela é alguém cujas características ele admira. Uma pessoa gentil, generosa, feliz, que respeita e trata bem as pessoas.

Quando admiramos uma pessoa, podemos tanto ter antipatia por ela, sem admitir para nós mesmos que isso se deve justamente ao fato de não possuirmos suas qualidades, ou podemos reconhecer a admiração e procurar nos tornar como ela, no que diz respeito aos atributos que valorizamos. É esta atitude que Phil passa a ter.

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Ele começa a se tornar prestativo, educado, inclinado e aberto a ouvir o outro. Passa a perceber que uma vida egoísta e autocentrada é uma vida incompleta, já que o contato, a troca e a partilha são partes essenciais da nossa humanidade, sem as quais há um vazio que pode se mascarar de várias formas – irritação, orgulho, inveja, tristeza.

A repressão de tudo aquilo que não lhe diz respeito também o impedia de mergulhar na riqueza que as outras pessoas têm a oferecer. Phil descobre a leitura, como mais uma forma de entrar em contato com um lado mais amplo do próprio ser, o lado que pode ser compartilhado e apreciado por toda uma comunidade. É o universo da cultura de todos os tempos, pleno de tesouros para todos os gostos, de onde cada um pode retirar para si uma porção capaz de encantar e prover sentido à existência. Emerge, então, o interesse na literatura, na música, nas artes em geral.

A jornada de Phil demonstra algo de que nem sempre nos lembramos. Podemos esculpir a nós mesmos. Temos capacidade de aparar arestas, mudar contornos, fazer surgir novas formas, transformarmo-nos em versões melhores de nós mesmos.

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Feitiço do Tempo apresenta um ser humano indo do extremo do egocentrismo ao extremo do altruísmo. É uma fábula e, como tal, não deve ser levada ao pé da letra. Ter interesse e cuidado pelo outro nunca deve substituir o interesse e cuidado que devemos a nós mesmos, mas sim somar-se a eles. Na busca por uma vida plena, amar é um verbo transitivo em várias direções.

Somos seres imperfeitos e sempre seremos, mas somos também capazes de nos aperfeiçoar. Mudar padrões arraigados não costuma ser fácil, mas é possível. É necessário haver vontade genuína, dedicação, paciência, consciência e confiança, além de compaixão consigo mesmo e perseverança, quando recaímos no comportamento que queremos mudar.

O inverno sempre voltará. Às vezes haverá sombra, às vezes não. O que podemos fazer é desenvolver relações verdadeiras, em que o afeto se manifesta na emoção, na reflexão e na ação. E todas as atividades de afirmação da vida, como a arte, seja produzindo ou apreciando, que a seu modo são capazes de nos unir devido ao seu caráter intrinsecamente humano e universal, contribuem para sairmos de nós mesmos o suficiente para observarmos nossas questões sob uma perspectiva mais ampla e promotora de evolução.

 

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