GENTE OCA – O QUE É LEVAR UM FORA NOS DIAS DE HOJE?

GENTE OCA – O QUE É LEVAR UM FORA NOS DIAS DE HOJE?

Gente Oca… Gente que quebra… Pessoas recicláveis e indiferenciadas. O que é se relacionar nos dias de hoje e levar um fora de pessoas sem repertório para conversar ou confortar? Vivendo num mundo onde é necessário coragem para amar e mais coragem ainda para se aproximar das pessoas e ter o choque de saber quem cada um realmente é. Com uma lupa, nossos príncipes viram sapos e as princesas viram pó… Sejam bem vindos ao amor nos dias de hoje.

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Fotografia – net

Em primeiro lugar, a menina que tentou…

Arabella era uma menina com histórias. Era uma menina de sentimentos muito simples mas de pensamentos e questionamentos muito complexos… Pensava e questionava na velocidade da luz e seu mundo era rico, repleto de variáveis onde tantas coisas poderiam ser que se considerava uma jardineira de fé. O ser humano é tão complexo e Arabella sempre, para qualquer pessoa, dava seu voto de amizade, coleguismo; tinha fé na coletividade e no amor. Arabella via a dor e a alegria nos olhos dos mais frios assassinos e nunca se intimidou em atendê-los pois todo ser tem um lado quente que, ao se olhar olhos nos olhos, se chega ao coração.

Em sua vida de menina Arabella plantava felicidade. Arabella sempre via o lado bom da tudo, até de suas infelicidades e desgraças e procurava transformar o que era só farinha velha em pão. Plantava amigos em todo canto ou simplesmente colegas… Queria gente, muita gente em sua vida pois sempre acreditou que o que há de mais belo no mundo é o ser humano embora soubesse que o bicho homem pode dar muito trabalho… Arabella acreditava que a maior sabedoria do mundo era a capacidade de aprender com toda a gente, do mendigo ao pródigo, do estúpido ao letrado.

Arabella um dia se distraiu e se encantou por alguém. Num flash, num sorriso… Arabella caiu na armadilha.

Não temos nenhum motivo para amar, para nos apaixonarmos mas temos muitos para querer deixar de amar e esquecer que um dia amou…

Arabella foi espontânea, foi menina, não sabia quem era esse alguém, que veja, não merece ter nome nesta narrativa pois depois de muitas conversas Arabella se esforçou e não encontrou nada dentro dele. Era oco e ela não sabia. Era um anônimo naquele dia para ela mas depois ela procurou e não encontrou a alma, o conteúdo…

Infelizmente este alguém nunca gostou de Arabella. Ela desejava se apresentar mas nunca tinha jeito para isso mas ele nunca viu nada em Arabella. Talvez ela fosse oca para ele também… Como saber?

Mas Arabella era uma jardineira de fé, médica de homens e de almas e pediu a um amigo querido confirmar que, realmente, o alguém não via nada nela mas Arabella quis oferecer a mão… Se ela não o fizesse, não se chamaria Arabella e não teria o lindo jardim de emoções e pessoas que ela possuía. Arabella pensou:

– Bom, ele é tão simpático por que não pode vir ao jardim, ver quem sou e ser mais uma alma, mais um amigo?

Arabella já tinha recolhido seu encantamento e estava tentando fazer uma coisa feliz. Arabella já entendia que ele tinha outras mulheres e que não havia espaço nem vontade de ter Arabella mas como uma jardineira de fé estava bem.

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Em um momento de folga Arabella e o alguém conversaram:

– Olhe vc me desculpe…

As palavras de Arabella não podemos saber. Ela estava acanhada e envergonhada e só queria continuar a fazer seu jardim… O NÃO como namorado, ficante e etcs ela já tinha. Infelizmente Arabella ficou ferida pois o alguém disse grosseiramente que entendeu tudo e reafirmou o NÃO que ela já havia entendido. Mas ela só gostaria de dizer que tudo bem e que ela gostaria de se apresentar e dizer QUEM ERA ELA!

Nessa hora Arabella era OCA… Ninguém se deu ao trabalho de ouvir, ninguém se deu ao trabalho de entender o que ela estava fazendo… Fazia seu jardim e tentava não descartar pessoas, colocando o fracasso no amor como um amigo ou pelo menos um colega.

Este alguém passa agora a ser ninguém.

Arabella escutou do NINGUÉM:

– Olhe Arabella… Eu só saio com garotas quando eu tenho um tiquinho assim de interesse por elas… E acho que os pontos principais estão esclarecidos…

Arabella olhou para si e viu… Sou oca! Sou totalmente transparente! Nenhum sentimento ou opinião dela importou em nenhum momento o que vale é o SIM ou NÃO do ninguém. Arabella, porém, é mulher forte… Não engole disparate de homem assim… Mas tudo bem.

Arabella, enquanto o ninguém discorria seu belo discurso de NÃO, que ela já conhecia, pensava: nossa, se nem como amiga, para falar de música, cachorro, gato eu sirvo… Sou oca… Sou nada…

– ESTOU SENDO DIRETO E NÃO ESTOU INTERESSADO.

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Fotografia – David Galstyan

Ela era a anônima, a transparente, que já havia entendido e não perguntara mais, mas ele dizia toda hora o discurso grosseiro e sem o mínimo de repertório, repudiando a amizade e a conversa da menina. Será que ele achou que além de transparente ela era burra?

Ela viu que ele não sabia nada de Arabella e nem queria saber. Arabella era o fantasma que estava perdendo a fé.

Arabella analisou sua vida e viu os foras que deu e os que levou e o problema nunca era o fora… O problema está em saber das condições da pessoa que se está dando o fora, saber as dores, saber os sentimentos, os traumas e as alegrias que moram no coração de cada um. Arabella lembrou de foras extremamente delicados e outros brutais; na vida, Arabella vira vidas destruídas por um fora e sempre quando Arabella ia dar um dava com cuidado pois como Clarice Linspector disse:

NÃO SE DEVE CURAR TODAS AS LOUCURAS DE CADA UM POIS NÃO SABEMOS AQUELA QUE SUSTENTA NOSSA PERSONALIDADE.

Arabella já tinha mais do que entendido o fora… Queria brotar a amizade…

E foi Arabella, com fé, tentar plantar o a flor no deserto e explicar… Ela se encantou, sonhou, viveu e não estava magoada com o fim… Será que dava para escutar a PESSOA Arabella?

Arabella era inteligente e havia entendido… O alguém era ninguém e e para o ninguém Arabella era ninguém e passava através dela como se ela fosse um fantasma.

Mas uma pergunta grita:

-E O NINGUÉM? -E OS OUTROS NINGUÉNS DO MUNDO?

Ainda em uma manhã, por força do destino, Arabella encontrou o ninguém tiveram uma conversa que foi tão terrível que Arabella escutou um sonoro:

EU JÁ DEI O MEU RECADO.

-PUXA! (sendo Nelson Rodrigues agora) ELA JA TINHA ENTENDIDO… QUAL ERA O PROBLEMA DO NINGUÉM? -Ah…

Arabella escutou umas breguices que ofendem a inteligência de uma mulher moderna mas nem considerou estas palavras… O ninguém afinal não tinha muito repertório mesmo e ela já desistira neste momento de ter uma conversa inteligente com o ninguém… E o ninguém seguiu com breguices de folhetim e não entendia que não havia mais interesse amoroso por parte de Arabella… A cegueira social do ninguém era tamanha que ele nem percebia que poderia falar sobre o tempo, a vida de todo mundo que a menina não iria ligar; pensaria até que ele é mais inteligente do que realmente era…

CADA PANELA TEM SUA TAMPA… ENCONTRE ALGUÉM QUE GOSTE DE VOCÊ… EU TENHO MEUS CRITÉRIOS (PARA MULHERES)…

Arabella até riu pois esta coisa de panela e tampa… Acho que nem a geração das vovós falava mais. Depois encontrar alguém que goste de de Arabella? Como assim? Ela sabia que ele não gostava dela como mulher mas será que passava pela cabeça do ninguém que, Arabella, a mulher geniosa, um furacão, se juntaria com um desafeto, sem amor? Foi no mínimo surreal para a menina bem mulher esta conversa. Para tentar plantar a amizade Arabella tentou dizer que não estava interessada, mas ela tentou falar e ele cortou suas palavras ainda calmas…

Morreu ali qualquer jardim e qualquer flor. Foras levamos aos montes e, o dia que não nos apaixonarmos mais, morremos. Devemos até amar nossos foras, pois isso nos mostra que estamos vivos e lutando por nossa felicidade. Como Manoel de Barros disse:

O AMOR É UMA PALAVRA VAZIA NOS ÚLTIMOS TEMPOS.

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Amar nos dias de hoje… Um ato de coragem…

As pessoas dizem “eu te amo”, “eu te quero”, como quem diz “por favor me passe o açúcar”… Arabella foi mais uma que viu alguém, uma pessoa com vontades, com defeitos, com vida própria e descobriu que esta pessoa não era ninguém, que era um oco e que se esvaziava a cada conversa. Hoje Arabella não consegue ver, pois quando ela pensa… Onde está mesmo a pessoa? PENSAR É ESTAR DOENTE DOS OLHOS (Alberto Caeiro).

Como se usam critérios para analisar pessoas? Analisando dezenas de pessoas todos os dias, com os mais diversos problemas, eu respondo com propriedade que NÃO EXISTEM CRITÉRIOS PARA ANALISAR PESSOAS.

CADA SER HUMANO É UM SER ÚNICO E ÍMPAR (Drummond). Esta deve ser a máxima de qualquer ser humano pois não tem como amarmos ao próximo sem entender que ele e pode ser totalemente diferente de nós.

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Infelizmente, cada vez que analisamos relações humanas, nos deparamos com a fragilidade dos vínculos, da insegurança conflitante de apertar laços afetivos e afrouxá-los ao mesmo tempo. Trata-se de uma forma efêmera de relações humanas que apareceram na pós-modernidade onde tudo é frágil, duvidoso, livre e inseguro. Com a tecnologia tudo ganha velocidade, novos direitos e grande defesa à liberdade de expressão. Levamos um fora pela internet sem nem poder berrar como um ser humano normal e expresser nossa dor, nossa raiva e nosso descontentamento. Hoje brigamos pelo celular, onde também todas as emoções ficam trancadas em nós, pois como mandar CATAR COQUINHOS!, com toda força de nossos pulmões, pela internet? O sentimento é retido e as máquinas fazem o papel de nossas bocas, mas nunca poderão transmitir de forma viva e real nossos sentimentos e expressividade.

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Essa relação de insegurança e incerteza resulta na incapacidade de amar ao próximo. Não podemos nos relacionar de maneira plena virtualmente, pois o sujeito nos tira a presença e, assim, surgem muitos sentimentos controversos que não se tratam de amor. Nos é negado a dignidade de sermos amados e nosso amor-próprio se abala com esta realidade. O amor-próprio é a força motriz da sociedade e a sociedade se abala com seus vínculos falhos. Amar ao próximo não é natural, é, na verdade, algo contra nossos instintos básicos e, por isso, é fundador da moralidade. Não existe mais referência moral e o respeito mútuo caiu em desuso pois respeitar é justamente ter vínculo.

Relacionamentos, discussões e diálogos frágeis ocorrem quando existe uma conexão, mas, nesta modernidade líquida, como definiu Bauman, não há responsabilidade mútua,pois não há pressão por parte de seus participantes. Não há remorsos em se trocar um parceiro por um melhor ou por outros parceiros; existe uma facilidade enorme em se desconectar e de ser escolhido como uma laranja na feira. A facilidade de se trocar de frutos e negociar preços é imensa.

A qualidade das relações humanas diminui muito quando a qualidade de uma amizade real é compensada por 500 ou 600 amigos virtuais, o que é humanamente impossível se trouxermos as vivências virtuais para o mundo real, isto é, para onde as coisas realmente acontecem. A afinidade está se tornando algo incomum no mundo moderno pois a afinidade vai contra a descartabilidade. Descartabilidade era o que Arabella tentava combater com seu ideal de jardim. Manter a afinidade, diminuir a descartabilidade sem necessariamente ter um laço amoroso é algo raro, quase em extinção. A afinidade envolve fixidez de qualquer espécie. As relações atuais se desenvolvem com aquilo que JÁ SE TEM e não com aquilo que se está A FIM DE TER. Não se arrisca atualmente amar sinceramente, se entregar. Amar é um sentimento fora de moda e perigoso nos dias de hoje. O homem repudia a solidão mas não abre mão da liberdade, do vínculo frágil e solto. Os casais hoje estão “sozinhos em em seus solitários esforços de enfrentar a incerteza” e a cada nova investida amorosa a dor é proporcional ao investimento. Por fim, investe-se cada vez menos.

Não é raro um casal ir dormir e dizer EU TE AMO e, de manhã, um dos pares brada ACABOU! O que aconteceu em horas? Este relacionamento existia? O amor não é garantido e a instabilidade das pessoas também transformam certezas em puro devaneio da noite passada. Não se pensa mais na subjetividade, nas relações e no que acontece na vida real. É fácil desligar o cellular numa briga mas como desligar uma pessoa? É muito fácil cortar os desconfortos de um mundo off line pois atrás de um celular ou laptop e se esconder um mundo próprio, ignorando a montanha de sentimentos humanos e de vivências perdidas com esta atitude.

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Tela – The Lovers – 1928 – René Magritte

Mas como disse Bauman em uma de suas entrevistas:

Mas não há almoços grátis, como diz o proverbio inglês: “se você ganha algo, perde alguma coisa”. Entre as coisas perdidas com relaçõe offline estão as habilidades necessárias a estabelecer relações de confiança, para o que der e vier, na saúde e na tristeza, com outras pessoas. Relações cujos encantos você nunca conhecerá a menos que pratique. O problema é que quanto mais você busca fugir dos inconvenientes da vida offline mais você se desconecta.”

Este amor frágil e líquido é um sentimento de constante ansiedade e tensão, pois se baseia em quantidade sem aprofundamento.

“É bom lembrar que o amor não é um objeto encontrado, mas sim o produto de um longo e muitas vezes difícil esforço de boa vontade”.

Um relacionamento é medido não pelo que oferece a você somente, mas também ao que ele oferece aos seus parceiros. O melhor relacionamento imaginável é aquele que ambos os parceiros praticam esta verdade, que envolve partilha, respeito mútuo e exposição mínima a vínculos e vivências.

Para fechar o artigo, o que Bauman recomenda aos jovens:

EU DESEJO QUE OS JOVENS PERCEBAM RAZOAVELMENTE CEDO QUE HÁ TANTO SIGNIFICADO NA VIDA QUANDO ELES CONSEGUEM ADICIONAR ISSO A ELA COM ESFORÇO E DEDICAÇÃO. QUE A ÁRDUA TAREFA DE COMPOR UMA VIDA NÃO PODE SER REDUZIDA A EPISÓDIOS AGRADÁVEIS. A VIDA É MAIOR QUE A SOMA DE SEUS MOMENTOS.

Bibliografia: Amores Líquidos – Zygmunt Bauman Editora Zahar

 

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