MEDUSA E PERSEU

MEDUSA E PERSEU

Em nossas vidas, tão repletas de sonhos e ilusões, há momentos de escolhas, de dilemas torturantes. Nestas situações, podemos ser vítimas de Medusa. Petrificamos. Perdemos oportunidades. Vacilamos. Fazemos escolhas erradas. Afinal, nossa vida é marcada por escolhas. No entanto, escolhas certas ou erradas fazem parte do processo evolutivo do ser humano.

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Na região mais distante da Terra, em meio a águas raramente navegadas, erguia-se a chamada ilha maldita. A humanidade evitava pisar ali – exceto aqueles que buscassem a morte ou tentassem cumprir alguma façanha impossível. E era nesse lugar, no exílio absoluto, que vivia Medusa.

Ninguém ousava contemplar seu rosto – e, contudo, esse rosto é um dos famosos na história da arte universal. Todos a temiam, mas ninguém conhecia sua história. Alguns diziam que ela era filha de uma antiquíssima família de monstros: seus pais eram Cetos e Fórcis, criaturas terríveis que habitavam os mares abissais. Medusa tinha também duas irmãs: Esteno e Euríale. Juntas, eram conhecidas como Górgonas, que significa apavorante. Sobre elas, o dramaturgo grego Ésquilo escreveu: “eram detestadas por toda a humanidade, pois ninguém podia contemplar seus rostos e continuar vivo”.

O poeta romano Ovídio contava uma história diferente – e mais perturbadora – sobre as origens de Medusa. Diz ele que o monstro fora uma mulher de notável beleza – seus cabelos, em especial, eram de graça fabulosa. Todos a cortejavam, mas ela não queria ninguém. Furioso de desejo, Poseidon, o deus dos mares, violentou-a no recinto de um templo.

O local era consagrado a Palas Atenas, a mais sensata e racional das divindades. Naquele dia, contudo, a deusa da sabedoria sentiu nojo. Para expurgar o sacrilégio, puniu a vítima. Os belos e luminosos cabelos de Medusa se contorceram, ganhando vida. As pontas das tranças sibilaram com línguas bifurcadas; gotas de veneno escorreram pela testa. Sua cabeça estava coberta por víboras; presas de animal selvagem distorciam-lhe a boca. Seus olhos soltavam uma luz horrível, que transformava em pedra quem ousasse encará-la. Ao ver sua própria metamorfose, Medusa estampou a expressão de fúria e horror que jamais a abandonaria. Não era mais uma mulher, era uma Górgona.

Certo dia, contudo, um invasor chegou sem fazer barulho – seus pés calçavam sandálias aladas e ele se deslocava pelo ar. Medusa ressonava. Suas feições se refletiam no escudo de bronze que o forasteiro trazia: mirando o reflexo, sem olhar a face fatal, ele preparou o golpe. A espada em forma de foice subiu e baixou, certeira. Quando os olhos de Medusa se arregalaram, num espaço, sua cabeça já fora separada do corpo. Não chegou a ver o rosto de Perseu.

Perseu era um herói, adorado pelos gregos e o único que conseguiu enfrentar Medusa. Destemido, corajoso, astuto e perspicaz.

Paradoxalmente, os arquétipos de Perseu (coragem) e Medusa (cautela) representam a luz e a sombra que convivem juntas, simbolizando nossa ambiguidade e humanidade. Em qualquer dificuldade, Perseu recorria ao alforje para mostrar Medusa. Os instantes mais dolorosos de nossa vida são aqueles que nos revelam a nós mesmos, as nossas diversas facetas.

Uma curiosidade é que na Piazza dela Signora, em Florença, encontra-se a representação de Perseu e Medusa – um conjunto em bronze forjado por Benvenuto Cellini, em 1545.

Pouca gente percebe, mas os rostos do herói e da Górgona são idênticos.

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