Por que você vê coisas no teste de Rorschach

Por que você vê coisas no teste de Rorschach

Os borrões de tinta mais famosos da psicologia enganam nossos olhos porque são fractais — padrões geométricos que estão por toda a natureza

O teste de Rorschach, também conhecido como teste do borrão de tinta, já foi o método de avaliação de personalidade favorito dos RHs de empresas na hora de contratar um funcionário. O candidato à vaga deve olhar um papel com uma mancha aleatória, e contar ao psicólogo tudo que ele vê ali.

Há quem não veja nada, há quem veja três figuras ou mais e há até quem cisme com o contorno confuso dos cantos – um sinal de obsessão. A interpretação das manchas já foi considerada uma janela para o subconsciente, mas o gabarito do teste, que inclusive “vazou” na Wikipedia, é considerado datado e pouco confiável atualmente.

Polêmicas à parte, um grupo de pesquisadores da Universidade de Oregon decidiu entender porque tantas pessoas veem tantas coisas diferentes em uma mesma mancha aleatória. E eles descobriram que é porque a tinta se espalha no papel em padrões geométricos fractais – os mesmos que estão espalhados e ocultos por toda a natureza, de um parente da couve-de-bruxelas chamado romanesco (que você pode ver aqui) a flocos de neve como este aqui.

O que torna os fractais especiais é o fato de que seu desenho se reproduz em qualquer escala: todo fractal é feito de versões menores dele mesmo, que por sua vez são feitas de versões menores ainda, também idênticas. Entenda melhor a seguir:

O físico Richard Taylor, líder do grupo, suspeitou que o método usado pelo suíço Hermann Rorschach para criar seu teste psicodélico em 1920 – jogar um pouco de tinta no papel, dobrá-lo e então pressionar as duas metades como um sanduíche de nanquim – criaria padrões fractais por causa da maneira como as fibras do papel absorvem o pigmento, um comportamento já conhecido na física dos fluidos.

A inspiração veio bem a calhar: Taylor está desenvolvendo olhos biônicos para devolver a visão a pessoas com problemas na retina, e precisa entender exatamente como nossos olhos funcionam antes de reproduzi-los em laboratório – entender porque nós vemos coisas onde não há nada é uma boa maneira de fazer isso.

Após identificar os padrões geométricos nas margens dos borrões , o físico classificou cada desenho abstrato conforme seu grau de complexidade. E então foi atrás de um banco de dados da época em que o teste era muito popular entre psicólogos para descobrir quantas figuras, em média, cada paciente costumava identificar em cada desenho. Não deu outra: quanto mais complexo é o fractal, menos gente vê algo nele.

Isso ocorre porque um desenho mais simples têm mais chances de se parecer com algo que nós já vimos e que já existe na natureza. Já desenhos mais complexos têm mais particularidades, o que os torna mais abstratos.

“Nossa pesquisa está focada no que chamamos de fluência fractal”, afirmou Taylor à imprensa. “Nossos olhos e nosso cérebro desenvolveram, com o tempo, a habilidade de identificar coisas em imagens ricas em fractais, e estudos mostram que nossos níveis de estresse caem quando somos expostos à fractais naturais.”

Do ponto de vista tecnológico, essa capacidade é um milagre da biologia. Os processadores dos olhos biônicos de Taylor ainda não comportam tanta complexidade, e podem se confundir: “Nós olhamos uma mancha de tinta ou uma nuvem no céu e na hora sabemos que não há um cachorro ou gato ali. O olho biônico se esforça só para entender, em primeiro lugar, se aquilo é mesmo uma nuvem”.

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