SILMARILLION, UNGOLIANT E A ETERNA FOME DO HUMANO

SILMARILLION, UNGOLIANT E A ETERNA FOME DO HUMANO

A obra Silmarillion, de J. R. R. Tolkien, é um clássico da literatura fantástica – a mais difícil e especial de todas. Mas será mesmo que essas obras, os contos de fadas, não dizem respeito ao “mundo real”? Pois Tolkien nos traz, na personagem malígna Ungoliant, a Grande Aranha, uma representação do humano que nos mostra que obras fantásticas vão muito além de uma simples história e que é destinada a todos os que se considerem humanos.

Thumbnail image for Ungoliant eating Melkor.jpg Link da imagem: https://goo.gl/S4EYSX

Os contos fantásticos são uma das mais difíceis formas de escrita e criação já inventada no mundo literário. São obras que criam mundos inteiros, culturas extraordinárias, músicas, indivíduos, seres mágicos e outros tantos elementos que trazem em si a imaginação do humano. Exímio criador desse gênero literário, J. R. R. Tolkien construiu um mundo incapaz de ser destruído e que perdura há quase um século. O livro Silmarillion conta as histórias de outrora da Terra-Média, local onde se passam as histórias de O Hobbit e O Senhor dos Anéis.

Conforme o próprio Tolkien salienta (em seu livro teórico sobre contos de fadas, Árvore e Folha), contos de fadas são, essencialmente, destinados aqueles que tem a sensibilidade e um alto grau de leitura e entendimento, logo, não são especificamente destinados a crianças (essas podem e devem ler sim, visto que podem crescer intelectualmente com a leitura – o que exclui contos estúpidos e simplórios), como se pensa hoje em dia – o que também destrói os contos, que acabam perdendo em qualidade visto que alguns escritores e pais acreditam que crianças são seres idiotas que não podem ler sobre o mundo. O autor destaca, principalmente, que todo conto de fadas advém da realidade e é criado a partir de experiências humanas adultas, bem refletidas e repensadas inúmeras vezes. É o caso de sua obra magna, onde Tolkien construiu não apenas personagens e uma história, mas um mundo todo, desde sua criação, passando pelas “eras” e, inclusive, uma língua totalmente nova e dedicada a história do livro para ser a língua falada por aqueles que viveram nos primórdios desse mundo. Tudo isso indica, conforme o próprio autor, uma ligação enorme com o “mundo real” (onde o conto de fadas está inserido, uma vez que advém dele) e, portanto, de difícil acesso pela leitura. Porém, estas histórias permitem que se reflita sobre os comportamentos humanos e sobre as “realidades” que o cerca. É o caso de uma personagem em especial de Silmarillion: Ungoliant, a aranha maligna que está sempre com fome.

Esse ser, na história, é tratado como horripilante, caído da escuridão dos céus antes de se criarem para este as estrelas, e que Melkor (o principal vilão, a representação do mal, senhor do famoso Sauron de Senhor dos Anéis), um “deus renegado” que decidiu ser senhor de si mesmo e de todas as criações, corrompeu para seu lado. Ungoliant é a representação do vazio, da desesperança, da busca incessante por “comida”, que no seu caso é luz, energia, aquilo que alimenta a dita “alma”. A aranha sinistra, como descrito no livro, “se arrastara na direção da luz do Reino Abençoado; pois ansiava pela luz e a odiava”. Essa busca pode ser ligada diretamente a busca do humano pela sua “luz”, largamente discutida por grandes filósofos e pensadores como Aristóteles (o “sumo bem”), Agostinho (a busca de “Deus”), Kant (a “verdade”), entre tantos outros. É a busca do preenchimento daquilo que completaria o vazio do humano, aquela sensação que temos da perda de sentido daquilo que nos cerca, das pessoas ao nosso redor, da vida em geral.

Durante a escrita, nessa personagem, Tolkien dá diversos exemplos de ações que a grande aranha pratica. Todas são tratadas como desprezíveis e horrendas, indo contra os desígnios dos deuses (os Valar, na língua élfica do livro). Porém, uma descrição que dá de Ungoliant é essencial para a compreensão da comparação com o humano: trata-se do seu egoísmo supremo e de sua busca voltada para si mesma, para seu interior, para sua própria satisfação. Aqui é onde se encontra a comparação: todo ser humano está preso em si mesmo e busca, a partir disso, satisfazer-se, alimentar-se como possível e quando possível, de forma inescrupulosa, sem preocupação com outros seres – é a demonstração cabal da podridão do humano que busca conviver com outros humanos. A frase que demonstra essa questão é a seguinte: “Ungoliant, no entanto, renegara seu Senhor [Melkor], por desejar ser senhora de seu próprio prazer, tomando para si todas as coisas a fim de nutrir seu vazio”.

Nós, enquanto humanos, somos dotados de uma capacidade finita de criação, devido, principalmente, as nossas limitações sensoriais que permitem-nos experimentar o mundo. A partir dessas experiências é que temos uma visão do mundo como ele é construído por nós mesmos, humanos. Devido a essas limitações, não conseguimos preencher alguns de nossos vazios. E essa condição, a de vazio, é inerente a todo humano. A partir do momento em que descobrimos que morremos e nos tornamos conscientes de nossa consciência (isso mesmo), então já não precisaríamos apenas de alimentos e abrigo para o corpo. E nos tornamos todos Ungoliants, em busca de luz, de alimento da alma.

Numa ravina, morava ela sob a forma de uma aranha monstruosa, tecendo suas teias negras numa fenda nas montanhas. Ali, sugava toda a luz que conseguia encontrar e passava a tecê-la em redes sinistras de uma escuridão sufocante, até que nenhuma luz conseguir mais chegar à sua morada; e ela estava faminta

Nos vestimos de aranhas, escalamos nossas montanhas, encontramos nossa caverna e lá montamos nossa morada, buscando engolir secamente toda a luz que nos chega, sem sequer mastigar, ruminar, como uma espécie de buraco negro advindo da escuridão (assim como viera Ungoliant, do nada). Somos impelidos para a luz, sempre, mesmo que essa nos machuque (e por isso nosso ódio por aquela luz – conhecimento, sabedoria, alimento da alma – que é muito forte, difícil de acessar e de se encontrar). E ficamos ali, enterrados em nós mesmos, vivendo em nossas cavernas, em nossas teias de experiências, criadas a partir de nossa nutrição rutilante, esperando que mais algum ponto de luz ouse encostar na mesma e nos alimente. Somos impelidos para nós mesmos. E, no espelho, se nos olhássemos, não veríamos nada além de uma grande aranha, com olhos negros, patas enormes e peludas, em busca de sustento para preencher seu grande e infindável vazio.

Tolkien trouxe a nós uma das maiores obras já escritas no mundo, em toda a sua história das letras. Silmarillion, assim como seus outros livros, é uma arte fantástica. Não apenas enquanto uma boa história, com bom enredo e cheia de tramas, um modo peculiar de escrita e uma beleza na descrição das personagens, mas também porque nos fala, em metáforas e alegorias, sobre nós mesmos. Talvez sua intenção não tenha sido, primordialmente, colocar em Ungoliant a representação do humano como ser desejante, que busca incessantemente (e inutilmente) o preenchimento de seu vazio pela saciedade de seus prazeres, porém a comparação é necessária e se mostra eficaz. Somos seres que se vestem de aranha. Desejamos diariamente. Saciamos incessantemente. Somos Ungoliant.

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