O que as séries da Marvel têm para aprender com Legion

O que as séries da Marvel têm para aprender com Legion

Você lembra dessa abertura?

Só de ouvir a música-tema eu já abro um sorriso. A série clássica dos X-Men foi produzida nos anos 1990, teve 75 episódios distribuídos em cinco temporadas – e marcou a infância de muita gente por aí.

Foi o primeiro contato que eu tive com super-heróis. Virei fã dos mutantes, comecei a comprar as HQs e ler tudo que podia sobre o grupo. Quando o filme dos X-Men chegou, em 2000, eu já tinha sido fisgado. Essa paixão abraçou outros heróis, também, e eu comecei a consumir muitos produtos relacionados.

Então, quando a Marvel anunciou que produziria quatro séries em parceria com a Netflix, o Lucas de 15 anos voltou para uma visitinha. Fiquei ansioso.

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Demolidor, a primeira da leva, se beneficiou pela novidade e todo o buzz, mas manteve uma história coesa e um protagonista até que cativante (ainda que o intérprete, Charlie Cox, deixe um pouco a desejar). Aí veio Jessica Jones, muito bem resolvida, com um tom noir marcante e uma trama psicológica de fazer inveja a vários thrillers por aí – tanto que a série figurou na lista de melhores do ano que a gente produziu em 2015 aqui na SUPER. Luke Cage, a terceira, apostou no blaxploitation e conseguiu resultados bacanas também. A expectativa para Punho de Ferro, que chega ao serviço de streaming nesta sexta, era grande – e a série decepcionou. É, de longe, a pior das quatro.

Vamos elencar:

1) Sobre o enredo. É mais uma trama de origem, com um cara rico que viaja para outro canto do mundo, perde algo muito valioso e dá a volta por cima usando uma força mística. Já vimos isso em Homem de Ferro. E Doutor Estranho. E Batman. E Arqueiro Verde.

2) Sobre os personagens. São bem unidimensionais, sem força, sem expressividade – com exceção da Colleen Wing, que tem uma história interessante, os demais não geram empatia nenhuma. O protagonista não deixa de parecer um guri mimado e deslumbrado com uma nova filosofia de vida que acabou de descobrir.

3) Sobre o estilo. Diferentemente das outras três séries que a antecederam, Punho de Ferro não tem nada marcante. A fotografia é básica, as cenas de luta são porcamente coreografadas, os diálogos às vezes machucam os ouvidos.

Tudo isso é bem frustrante, porque Punho de Ferro tinha um potencial incrível. Os produtores poderiam ter tomado mais liberdades em relação ao material original das HQs. Outra estreia recente, aliás, também é baseada em uma história em quadrinhos, mas a qualidade é diametralmente oposta à de Punho de Ferro.

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Legion estreou em fevereiro nos EUA. A série apresenta Legião, personagem das HQs dos X-Men. Ele é o alter-ego de David Haller, mutante filho de Charles Xavier com transtorno dissociativo de identidade – várias mentes e personalidades habitam o corpo do cara, e cada uma delas tem um superpoder diferente.

Sabe tudo que eu mencionei ali em cima sobre Punho de Ferro? Então, pega todas as ideias e aplica aqui, só que ao contrário.

O enredo de Legion é original – nós conhecemos um mutante poderoso, que inicialmente pensa que suas habilidades são, na verdade, sintomas de esquizofrenia. A história de origem de David não segue à risca os quadrinhos: rolam umas mudanças sutis (e outras bem grandes) que não deixam de surpreender.

Os personagens têm um propósito, uma história clara. O elenco é muito bom, aliás: o protagonista é vivido por Dan Stevens, que interpretava um dos ingleses de Downton Abbey e dá vida à Fera no novo A Bela e a Fera. Tem também a Aubrey Plaza, fazendo uma versão dark e mais biruta da April de Parks and Recreation.

Mas o destaque é mesmo para o estilo. A direção, a edição e a fotografia de Legion são fenomenais, com uso de cores e escolhas inusitadas de ângulos. Em determinados momentos, a série é um suspense. Duas cenas depois e já temos elementos de horror. Mais tarde, mas ainda no mesmo episódio, há uma demonstração dos poderes de David, e aí a gente lembra que é uma série de “super-heróis”. E no melhor estilo Dom Casmurro, assistimos tudo inicialmente do ponto de vista do personagem principal – e sua memória comprometida compõe o que é, sem dúvidas, um narrador não confiável.

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Tudo funciona porque tem um quê de novidade, de algo que nunca vimos antes. Bryan Singer, diretor de alguns dos filmes dos X-Men, é um dos produtores, mas o tom alcançado pela série é diferente do que já conhecemos do cinema. Parece o mesmo mundo, mas em outro tempo, com outra proposta.

Legion foi renovada para uma segunda temporada, que deve ser exibida no começo de 2018. A primeira tem oito episódios. Essa leva reduzida já é boa: a narrativa permanece dinâmica, sem aquele ar de nada-acontece que rola nas séries da Netflix.

No serviço de streaming, a próxima novidade é a série dos Defensores, grupo formado pelos quatro heróis da Marvel. Ainda não há data de estreia, mas a exibição deve rolar no segundo semestre deste ano. Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro devem se unir contra um inimigo comum – no caso, o Tentátulo, organização criminosa que dá as caras desde o início desse universo. Com todos devidamente apresentados, talvez seja mais fácil avançar a história sem cometer os mesmos deslizes.

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