A EMPAREDADA DA RUA NOVA

A EMPAREDADA DA RUA NOVA

Que as mulheres sejam cada vez mais empoderadas e nunca mais emparedadas.

A emparedada da Rua Nova.jpg Imagem: Editora CEPE

Não se configura spoiler, contar uma das tantas histórias surpreendentes do livro “A emparedada da Rua Nova”, visto que a cena a seguir não é a principal da trama. Como o próprio título já revela, há na obra de Carneiro Vilela, a realização de um ato de brutalidade provocado por um pai à sua filha. Ela fora emparedada viva porque o homem precisava cumprir seu papel de zelador da honra, da moral, da família e dos bons costumes.

O livro inteiro, com cerca de 500 páginas é uma exposição de atrocidades e de ridicularidades cometidas por uma sociedade hipócrita (a nossa), no final do século XIX nos arredores da cidade do Recife. Representa não somente o comportamento dos pernambucanos, mas sim de todo o Brasil, país cheio de incoerências em suas regras e máscaras que seus atores se submetem a usar.

Ao terminar a leitura do livro fica evidente o que o autor quis criticar ao escrever histórias tão cabulosas e cheias de amor, paixão, malandragem e sobretudo hipocrisia. Seus alvos favoritos foram o cristianismo (mais especificamente a religião católica – visto sua grande influência naquela época), a educação ofertada pelas escolas e pelas famílias, a sociedade como um todo e suas conveniências, onde o indivíduo, seja qual for sua classe, se vale de expedientes duvidosos em busca sempre de vantagens egoístas, em detrimento do respeito e da honestidade.

A história mostra como as mulheres se deixam levar pela lábia de um sujeito chamado Leandro Dantas, rapaz bonito que vive de conquistas amorosas com vistas a tirar vantagens financeiras de suas amadas. Recebem destaque Celeste, Josefina e Clotilde (amiga, mãe e filha). Todas ao mesmo tempo foram culpadas e vítimas, e viram a desgraça chegar às suas vidas.

A sociedade da época dizia que o homem traído precisava lavar sua honra a qualquer custo e isto estava enraizado em sua alma, ao passo que existiam também homens que não estavam dispostos a expor suas mulheres aos absurdos castigos corretores de seus erros. Contudo estes estavam em sua minoria, o machismo era quem reinava.

Dentre as mulheres em destaque desta história, Clotilde (a mais jovem) foi a que representou a empoderada.

Apesar de ter sido tola ao se apaixonar por um cafajeste (e isso não é crime algum), teve a coragem de encarar as mais duras situações que vieram se desenvolver depois do acontecido. Não permitiu que o pai enlouquecido de cólera e machismo determinasse seu destino, e mesmo sob toda pressão que ele exerceu lutou até o fim pela sua vontade absoluta.

E seu empoderamento levou ao emparedamento.

A um primeiro olhar, lendo o livro em pleno o século XXI podemos pensar que os tempos são outros, que os homens não agem mais de maneira tão insana quando se veem traídos pelas mulheres, nem se sentem proprietários, nem superiores à elas.

Até que ponto isto pode ser verdade?

Quando uma mulher é censurada por estar amamentando um bebê em público, ela está sendo EMPAREDADA.

Quando uma mulher é rotulada de vagabunda por estar vestindo uma roupa curta, ela está sendo EMPAREDADA.

Quando uma mulher recebe um salário menor desempenhando a mesma função de um homem, ela está sendo EMPAREDADA.

Quando uma mulher é alvo de piada sobre direção veicular, ela está sendo EMPAREDADA.

Quando uma mulher se vê privada de andar sozinha pela rua sem medo durante a noite, ela está sendo EMPAREDADA.

Quando uma mulher não pode escolher o que fazer com seu próprio corpo, ela está sendo EMPAREDADA.

Quando uma mulher é privada de sua liberdade sexual, ela está sendo EMPAREDADA.

Quando uma mulher é violentada, obviamente, ela está sendo EMPAREDADA, privada de liberdade, de direitos, de sua condição inviolável de ser dona de si mesma.

Os tempos são outros e não se pode permitir a perpetuação de atitudes de desrespeito pelas mulheres.

Que elas sejam cada vez mais EMPODERADAS e nunca mais emparedadas.

P.S.: A emparedada da Rua Nova foi lançado como livro em 1886, sua história se passa em meados do século XIX. A obra também foi editada em folhetim no Jornal Pequeno, entre os anos de 1909 e 1912. A história serviu de inspiração para a série Amores Roubados da Rede Globo no ano de 2014. Faz parte da mitologia e literatura naturalista pernambucana.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s