A VIDA É FRÁGIL DEMAIS

A VIDA É FRÁGIL DEMAIS

Uma crônica sobre a fragilidade em que vivemos.

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O som do teclado penetra no ar. Unhas pintadas com esmalte barato cor de esmeralda, em meio ao cheiro de cigarro e à ansiedade, batem freneticamente nas teclas. Olhos caídos, cansados, deprimidos, cheios de cólera e rancor acompanham o nascimento das palavras na tela. Seu cabelo cai suavemente no seu rosto, quase que como um pedido de carinho e atenção, tentando barrar a luz e o desgaste de a alcançarem. Inutilmente, claro. Se nem drogas de última geração impedem o seu definhamento, quem dirá uma mecha castanha.

O relógio não para. Tic, tac, tic, tac… como um pêndulo que sussurra alto demais e te cutuca quando acha que merece mais atenção. O som das teclas sessa. O silêncio às vezes é mais cruel do que guerras. Talvez até mais mortífero, mas nunca menos elegante ou delicado. Classe é para poucos, afinal.

Eu entro. Se trata de uma loja de quinquilharias. Como se os restos do capitalismo fossem mandados pra cá, na sua última tentativa de trazer algum lucro — talvez o pior é saber que existe alguém que compre toda essa tralha. O cinzeiro queima junto às bitucas de cigarro e aos restos mortais do prazer que davam, produzindo uma fumaça triste. Quase consigo ouvir o choro da nicotina. A roupa limpa da atendente — branca, engomada, quase que brilhante e mesquinha, como uma criança mimada que deseja seu doce— contrasta com todo o ambiente sujo e decadente.

A vida humana é frágil. Frágil demais, ouso dizer. Tenha isso em mente. Acerte nos pontos certos que você a imobiliza rapidamente. Já viu aquelas lutas de MMA, onde lutadores se agarram, ou aqueles documentários de aranhas venenosas e astutas na Netflix? Não importa. No fundo, tudo parece o looping de uma cópia. “A história não é uma linha do tempo, senhores, e sim um ciclo”, dizia meu professor do ensino médio enquanto desenhava um torto e nada redondo círculo na lousa.

Chega a ser engraçado pensar que criamos e desenvolvemos até hoje maneiras de matar nossos semelhantes. Quanto mais rápido e eficiente, melhor. Será que os caras não sabem que a espécie humana precisa se perpetuar? Imagina se todo o esforço que foi dedicado a construir uma bomba nuclear fosse focado em, sei lá, fazer o rádio pegar no túnel. De qualquer forma, aqui estou eu com minha .38 no bolso. Quase como que uma extensão do meu corpo, da minha raiva. Dói menos que a morte, mas machuca mais que a realidade.

Eu abaixo meus óculos levemente e encaro a mulher. Por baixo dos panos e acima da pele, seguro minha ferramenta de trabalho. Espero 4 tics do relógio e nada. Nem um olhar. Nem mesmo para me julgar. Mas que tal se eu fizer o meu próprio tic? Saco a arma e engatilho a bala. Téc. Droga, errei o som. Ah, agora tenho sua atenção, senhora? Paralisia total. O medo correndo no seu sistema nervoso. Sinapses a mil. Frenesi controlado. Meu olhar já diz tudo. As unhas pintadas começam a pegar o dinheiro do caixa, logo ao seu lado. Não é muito, mas… o que se esperar de um lugar desses? Unicórnios e espadas flamejantes?

Alguém chuta a porta e entra gritando. Dois policiais. O da esquerda, de estatura média, acima do peso, provavelmente tem esposa, filhos e gosta de futebol americano. O outro, da direita, mais esguio e pálido, tem cara de quem passa a noite assistindo TV sem nem mesmo prestar atenção. Os dois sacam a arma e gritam “parado!”. O irônico é que eu não mexi um músculo desde que eles entraram.

A vida é frágil demais. Saco um cigarro e acendo. Os dois estão tensos. Voltando à arma. Um olhar para a atendente, checando onde ela está. Ajuste na mira, levemente mais pra direita do que deveria. Os dois me encaram, seus olhos vidrados como os de um drogado suplicando por mais. Nós cinco aqui sabemos o que vai acontecer. Meu cérebro manda o sinal e meu dedo contrai. Bang. O baque surdo de um corpo infeliz atinge piso de madeira. Sangue se torna carpete. Eu não falei que era frágil demais?

Bang. Mas dessa vez não veio da minha arma. Uma brisa atinge meu rosto logo antes do projétil, como se fazendo carinho de despedida. O cheiro de gasolina e poeira adentram minhas narinas. E lá vem a bala, cortando o ar sem nem mesmo se importar, em uma trajetória perfeita de colisão com a minha têmpora. A pólvora da bala ainda queimando. Um latido de um cachorro chega aos meus ouvidos.

A vida é frágil demais…

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