REINVENTANDO OS ANOS 1980

REINVENTANDO OS ANOS 1980

Dois álbuns excelentes, que misturam sonoridades típicas dos anos 80, criando uma década que jamais existiu, a partir de elementos existentes.

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Filha do Céu e da Terra, a titânica deusa da memória, Mnemosine, é mãe das Musas, inspiradoras das artes e da História. Essa genealogia telúrica indica que, para os helênicos, memória e imaginação não estavam tão dissociadas como presentemente muitos idealizam. A preocupação com a realidade ou relatos fidedignos faz alguns esquecerem que o rememorar envolve selecionar, apagar e sobrepor informações. Ter isso em mente ajuda a compreender e fruir alguns lançamentos que usam lugares-comuns de produção oitentista, (re)criando uma década por vezes fictícia ao juntar elementos que na época não se davam bem ou nem eram coetâneos, mas que, como existentes, não deixam de representar “de verdade” o decênio.

O sensacional segundo álbum-solo de Brandon Flowers exemplifica isso com perfeição. As dez faixas lembram inúmeros artistas/canções 80’s numa quase-paródia, mas os elementos estão tão misturados que nenhuma faixa é cópia de artista A ou B, porque possuem características de produção de diversos. Hall and Oates (fase Out of Touch), Stevie Nicks, Huey Lewis and the News, Paul Simon (fase Graceland), Peter Gabriel (fase So), Steve Winwood (fase Higher Life) são fração das influências e semelhanças encontradas em The Desired Effect, lançado em maio de 2015.

Canções fortes produzidas por Ariel Rechtshaid, que nos anos de inspiração seriam pejorativamente chamadas de exageradas. Hoje, críticos usam o mesmo adjetivo para elogiar. Untangled Love é o tipo de Americana febril de estádio para ver o show cantando com os braços pra cima. Diggin’ Up the Heart é rockão cinquentista produzido como o século XXI percebe os 80’s produzindo rock dos Anos Dourados. Rick Springfield querendo ser Bruce Springsteen encontra Dire Straits. Para ser mais typical 80’s só se tivesse participação da Tina Turner, onipresente na época.

Teclados múltiplos, bateria pesada, uma tonelada de backing vocals femininos anônimos, eventual vozeirão de negra ao fundo (como não lembrar de Oleta Adams, tendo vivido a década?) e todos – sim, todos – os truques, cacoetes e barulhões power pop à Laura Branigan, Robert Palmer ou Dan Hartman (descansem em paz), mas Lionel Ritchie também virá à cabeça se você prestar atenção e conhecer bem o pop ointentista. A contagiante Can’t Deny My Love tem teclado calmo de Foreigner no começo, mas desabrocha num bombástico hino com piano elétrico merengado à Miami Sound Machine e aquele efeito freestyle que metade dos artistas 80’s usou.

I Can Change não deixa dúvidas quanto à paternidade oitentista de The Desired Effect. Começa baladeira com vozinha fina e piano elétrico, mas no momento em que Brandon promete para a garota que pode mudar, entra a batida de Smalltown Boy, do Bronski Beat bem ao estilo pós-moderno dos meshups e o negócio vira synth-dance pulável. A heterossexualização da letra – a canção dos ingleses do Bronski tem forte subtexto gay – camufla subversão deliciosa, porque quando a promessa é feita à guria pela primeira vez, entra backing vocal fininho; ninguém menos que Jimmy Somerville da canção original, soltando a franga. E quer maldade maior para homofóbicos em potencial do que colocar Neil Tennant, dos Pet Shop Boys, em discreta participação? Claro que a sonoridade Pet Shop Boys tipo It’s a Sin aparece em algum canto do álbum.

Suspeito que o efeito desejado pelo vocalista do The Killers nessa aventura sozinho era ser universalmente amado e respeitado como astro pop. OK, Brandon, você venceu. The Desired Effect é incrível do começo ao fim com sua rememoração de uma década de 1980 bastante imaginada.

Os anos 80 são comum e vulgarmente citados como a década do exagero. Cabelos se armavam em torres ou despencavam em cascatas multifonrmes; sempre armados, lotados de gel. Ombros masculinos e femininos pareciam de jogador de futebol americano, de tão largos, graças a ombreiras cada vez maiores. Roupas e acessórios se sobrepunham em combinações policromáticas de puro exagero. Na TV imperou a opulência escapista de séries como Dallas e Dynasty (que o canal CW promete ressuscitar). Yuppies consumiam cocaína e água mineral engarrafada Evian como se fossem água. Musicalmente, a primeira metade foi dominada pelas torrentes criativas do synth pop, New Romantic, New Wave, pós-punk, enfim, filhotes da suruba glam, punk, prog, Bowie, Chic, Blondie, Roxy Music, Giorgio Moroder e Kraftwerk dos 70’s. Mais para a segunda metade, acentuou-se a estridência e a superprodução, saturada de efeitos e da grande praga musical do decênio: a bateria eletrônica. Iniciava-se a Guerra dos Volumes, como apontou o crítico Rafael Senra.

Feliz e acertadamente, o supergrupo Dreamcar colheu do solo mais fértil dos 80’s e seu LP homônimo de estreia, lançado dia 12 de maio deste ano, não vai muito além de 1984. Pode até ter um bocadinho de Depeche Mode fase Black Celebration (1986), mas é suave; a ênfase é na New Wave dançante da glamurosa alvorada oitentista.

Dreamcar é a fusão do vocalista Davey Havok, da banda AFI com a parte instrumental do No Doubt. Como Gwen Stefani está ocupada sendo jurada de show de calouros hype, Tony Kanal (baixo), Tom Dumont (guitarra) e Adrian Young (bateria e percussão) juntaram-se a Havok em projeto paralelo que expressasse seu grande amor pela música de mais de três décadas atrás. O resultado são doze canções que parecem álbum de grandes sucessos ou coletânea de pérolas perdidas da década do PacMan.

Experientes buriladores, os quatro não perdem tempo na fórmula do pop viciante: alguns segundos de introdução, primeiro verso e logo entra o refrão, sempre energético, mesmo nas músicas midtempo. Quando esse refrão entra, remanescentes/amantes dos anos oitenta desejarão colorir o rosto com muita maquiagem, untar o cabelão com potes de gel, combinar peças de roupa verde-limão com cor de laranja e lilás e ir para algum estádio pular e acender isqueiro.

Dreamcar é puro pop de arena com deliciosos solos de guitarra e muita influência do Duran Duran. Os Fab Five são a inspiração para a canção de abertura, After I Confessed e Do Nothing. Essas são calcadas na fase primeira do DD2, ao passo que On The Charts é de quando funkearam com Nile Rodgers.

Sem ser cópia escarrada de nada, o Dreamcar exibe influência atrás da outra. Em Kill For Candy, o baixo soa como o de Peter Hook, enquanto em Ever Lonely vocais e bateria evocam o The Cure (fase Pornography). Mas o clima não é o gótico do cabelão e do batom cuidadosamente mal-aplicado e sim de Talk Talk. All Of The Dead Girls brinca com a batida percussiva de Adam & The Ants e Born To Lie é como se A Flock Of Seagulls tivesse reencarnado. Em The Assailant o vocal de Havok assume o mesmo drama de Andy Bell, mas quando entra o coro, o clima muda para Depeche Mode. Grande ironia – intencional? – porque Erasure e Depeche se detestavam no auge das carreiras.

Com paleta sonora propositalmente menor e geograficamente enfatizando a Inglaterra, o álbum consegue o mesmo feito de The Desired Effect (2015), de Brandon Flowers (link para resenha, ao final desta): inventar sonoridade oitentista que nunca existiu do jeito apresentado pelo álbum, porque na época estava fragmentada entre diversos artistas. Por isso esses álbuns soam criativos e frescos, não meros clones.

 

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