PRECISAMOS CONVERSAR SOBRE SOLIDÃO

PRECISAMOS CONVERSAR SOBRE SOLIDÃO

Ficamos sozinhos pelo medo do excesso, da cafonice e da melosidade. Criamos um nada que se espalha ligeiro pela nossa pós-modernidade e pelo minimalismo de nossos apartamentos discretos e ícones desapegados.

Estar sozinho é ótimo. Pensar em si mesmo, arrumar a casa e a cabeça. Ver seus filmes preferidos, escutar as músicas que temos vergonha de ouvir em público. Ir e vir sem dar satisfações. Usar as meias velhas e o pijama de gatinho que temos no fundo do guarda-roupas. Ter a liberdade de estar sozinho é ótimo. Gostar da própria companhia não só é legal como é fundamental para poder gostar de qualquer outra coisa no mundo. Mas fazer isso pela moda da liberdade e do minimalismo não é mais que tão falada solidão pós-moderna.

Não se pode condicionar a felicidade a outra pessoa. Isso nunca vai deixar de ser verdade. Ser feliz sozinho é ótimo. Mas de que adianta se esforçar para produzir toda essa felicidade sem ter ninguém para dividir? Nada na vida é bom em excesso, já diziam nossas avós. Nem a solidão, nem a companhia.

Dormimos um terço do nosso dia. Trabalhamos outro terço. Ficamos atrás de computadores, de clientes, de vassouras, de caixas, de enxadas, de pacientes. Ficamos um terço do dia vendo pessoas aleatórias e pensando em nosso trabalho. E outro tanto sonhando com isso.

Quando é que temos tempo para passar com quem amamos, hein, leitor que lê isso sozinho? Amigos, irmãos, pais, namorados e maridos. Encontramos os amigos para uma cervejinha no final de semana, vemos a família em alguns feriados. Vivemos esperando os dias em que isso vai acontecer e você não vai dormir num apartamento silencioso com seus livros e seus chás exóticos na mesa de cabeceira. Com quem estamos o tempo todo, com quem dividimos essa nossa ótima vida de filmes e músicas e ecos?

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Nossas avós estavam certas, como sempre estavam essas sábias senhorinhas. Pecamos pelo excesso. Na independência pós-moderna do século XXI, pecamos pelo excesso do minimalismo. Pelo excesso da solidão, da individualidade, do medo de ser o ‘pegajoso’ da turma, do namoro, do trabalho. Chegamos em um ponto em que o ‘nada’ cresce como uma ferida que nosso minimalismo cultua.

Estar sozinho é bom quando é escolha e essa escolha é realmente a vontade de ficar sozinho. Não quando a vontade é de ser padrão, de estar na moda, de ser como as pessoas sozinhas em seus apartamentos moderno. Quando temos o excesso de medo de se jogar nesse mundo de meu Deus e se envolver com os outros, de dar a cara a tapa, de expor o coração. Temos medo de que nosso tudo seja rejeitado pelo nada do outro, mas só oferecemos o nada. Abraçamos e cultuamos isso mesmo quando o peito quase explode de excesso, quando nos colocamos plácidos e apáticos quando a vontade é correr na chuva e sentir todo o seu corpo no meio do tudo.

© obvious: http://obviousmag.org/cafe_com_prosa/2017/precisamos-conversar-sobre-solidao.html#ixzz4kNyXVkt4
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