3 palavras para entender a tensão entre EUA e Coreia do Norte

3 palavras para entender a tensão entre EUA e Coreia do Norte

Não se perca na troca de faíscas entre Trump e Kim Jong-un.

Da última vez que o governo dos EUA tirou uma bomba atômica do armário, deu tudo errado tão rápido que o famoso relógio do juízo final – que marca quantos minutos metafóricos faltam para uma catástrofe nuclear – não teve tempo de se mexer. Ainda bem: se alguém tivesse mudados os ponteiros, ele teria ficado a apenas alguns segundos da meia noite.

Foi em outubro de 1962, na famosa crise dos mísseis de Cuba. Resumo da ópera: os EUA, à título de provocação, posicionaram ogivas na Turquia e na Itália e apontaram tudo para Moscou. A União Soviética, que não gostou nada dessa história, devolveu a alfinetada pondo seus próprios mísseis nucleares em Cuba, a pouco mais de 100 quilômetros da Flórida. Uma potência virou refém da outra, e por 13 dias o mundo prendeu a respiração – chegava ao auge a Guerra Fria. Entenda melhor a história aqui na SUPER.

Apesar da tensão, ninguém apertou o botão e tudo foi resolvido diplomaticamente – prova disso é que você está lendo esse texto e a Terra não virou uma cratera radioativa. Pena que, 50 anos depois do episódio, quem mais precisava não aprendeu a lição. O relógio da Bulletin of the Atomic Scientists, que rendeu até música do Iron Maiden, está a 2 minutos e 30 segundos do juízo final, o pior nível desde 1953.

A culpa é, em parte, de tuítes como este aqui, publicado hoje por Donald Trump: “As soluções militares estão totalmente posicionadas, as armas estão preparadas caso a Coreia do Norte haja de forma insensata. Espero que Kim Jong Un encontre outro caminho!”

Military solutions are now fully in place,locked and loaded,should North Korea act unwisely. Hopefully Kim Jong Un will find another path!

Seu atrito com o líder norte-coreano, é claro, não chega nem aos pés da crise 1962 – a começar pelo fato de que, ao contrário da Coreia do Norte de hoje, a Rússia da época realmente tinha a tecnologia necessária para varrer os EUA do mapa (e vice-versa).

“Eu não sei de ninguém no Pentágono, militar ou civil, que tenha recomendado ações preventivas contra o programa de armas nucleares da Coreia do Norte”, afirmou à Columbia Journalism Review o jornalista da CBS David Martin, especialista em segurança nacional. “Mas quando o presidente e o secretário de defesa falam essas coisas, fica fácil escrever uma matéria apocalíptica.

Agora que você está (mais ou menos) aliviado, vale entender melhor três palavras-chave dessa guerra verbal.

1) ICBM

A sigla que mais apareceu no noticiário nas últimas semanas, significa, em português, míssil balístico intercontinental. Ele não é sinônimo de bomba atômica – é “só” um veículo com alcance suficiente para levar uma (ou mais) ogivas nucleares do local de lançamento para um alvo muito, muito distante – no mínimo 5,5 mil quilômetros, a distância entre Nova York e Londres.

O crédito da ideia é todo dos engenheiros de Hitler – que, nos últimos anos da Segunda Guerra, queriam dar um jeito de apagar Washington do mapa sem ter que pôr os pés nos EUA, e começaram a desenvolver a tecnologia necessária para isso. Com o fim do conflito, esses projetos e as melhores cabeças alemãs foram capturados pelos americanos e soviéticos – que usaram a tecnologia que os nazistas haviam começado a desenvolver para criar seus ICBMs. Os mísseis deram certo em 1957, no caso da URSS, e 1959, no caso dos EUA, dando início ao capítulo mais quente da Guerra Fria.

Desde o episódio de 1962, e principalmente após a queda do Muro de Berlim, em 1991, o número de ICBMs vêm diminuindo no mundo todo – além dos países permanentes do Conselho de Segurança da ONU, só Índia e Israel possuem mísseis do tipo em operação.

Contrariando a tendência, a Coreia do Norte entrou para de vez para o clube em julho deste ano, quando, apesar de limitações técnicas, lançou seus primeiros ICBM realmente bem-sucedidos. O Hwasong-14 atingiu 3,7 mil quilômetros de altitude e viajou mil quilômetros antes de cair no local previsto, em águas próximas do Japão – um dos marcos iniciais das discussões inflamadas com Trump.

2) B1-B Lancer.

Ele não era um avião muito conhecido até a manhã dessa sexta-feira, quando Trump compartilhou um tuíte das forças armadas que afirmava que dois desses bombardeiros estavam sendo enviados para exercícios militares no Pacífico Norte em conjunto com Japão e Coreia do Sul. A notícia foi acompanhada da #FightTonight (lute hoje à noite), uma referência ao fato de que as forças armadas norte-americanas estão prontas para reagir caso seja necessário.

Com 44 metros de comprimento e asas de geometria variável – que podem se dobrar para trás, em forma de flecha –, o avião, que entrou em serviço em 1986, também é uma herança da Guerra Fria. Foi projetado ao longo da década de 1970 para atingir velocidades supersônicas e passar incólume pelas defesas soviéticas – uma resposta à evolução dos sistemas de defesa aérea russos.

O modelo costumava ser capaz de carregar armas nucleares, mas essa função foi desativada, por motivos óbvios, com o fim da Guerra Fria. Seja como for, suas rondas na região são uma demonstração de força dos EUA.

U.S. Air Force jets take off from Guam for training, ensuring they can ‘fight tonight’ http://fxn.ws/2hIvGMx 

Photo published for US Air Force jets take off from Guam for training, ensuring they can 'fight tonight'

US Air Force jets take off from Guam for training, ensuring they can ‘fight tonight’

Less than 24 hours after North Korea revealed that it is considering a plan to fire a missile at Guam, two U.S Air Force B-1B bombers, under the command of the U.S. Pacific Air Forces, joined…

foxnews.com

3) Guam

É uma pequena ilha do Pacífico, localizada 2,1 mil quilômetros à leste das Filipinas e a meros 3,4 mil quilômetros de Pyongyang. Não é parte oficial do território norte-americano, mas responde à Casa Branca e seus 160 mil habitantes são cidadãos dos EUA.

Até o final do século 19, a ilha era comandada pela Espanha – uma herança das Grandes Navegações. Acabou nas mãos dos Estados Unidos em 1898, após a rendição dos ibéricos em uma guerra entre os dois países, e começou a abrigar uma espécie de pit stop das forças armadas ianques no Pacífico.

Após a invasão japonesa e eventual reconquista da ilha durante a 2ª Guerra, a presença militar se intensificou e o pedregulho paradisíaco, três vezes menor que o município de São Paulo, se tornou uma das bases estratégicas mais importantes – e bem protegidas – dos EUA (29% da superfície da ilha é ocupada por mais de 5 mil militares). De lá partiram, por exemplo, os enormes bombardeios B-52 que atuaram nos últimos anos da Guerra do Vietnã.

Não é surpreendente, portanto, que Donald Trump tenha reagido mal à ameaça norte-coreana de lançar seus ICBMs a alguns quilômetros de distância de Guam – em termos estratégicos, isso é bem mais do que uma “fina”. Ninguém, porém, leva tão a sério os ICBMs coreanos, que só conseguiram percorrer a distância necessária para o ataque hipotético em um dos quatro testes feitos até agora. A taxa de confiabilidade está muito abaixo do necessário para levar a ameaça a sério, e foi classificada como “drama máximo” pela CIA.

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